A REVELAÇÃO PESSOAL E ETERNA DE DEUS

            Permitam-me introduzir esta comunicação com uma citação do Livro que nos reúne em torno do evento “A Bíblia Manuscrita”. De entre as centenas de páginas escolhi uma história contada pelo seu personagem principal, a pessoa de Jesus Cristo, vulgarmente conhecida como “A Parábola do Filho Pródigo” e que sintetiza de alguma forma e de maneira segundo a nós inexcedível, todo o enredo da obra e da história da humanidade na perspectiva bíblica. Usamos para o efeito a tradução interconfessional revista, da Sociedade Bíblica de Portugal que organizou o projecto “A Bíblia Manuscrita” e que, de uma forma muito especial, quero saudar pelo seu papel na divulgação do texto sagrado em língua portuguesa desde 1835. É de longe o livro mais divulgado: só as Sociedades Bíblicas distribuem anualmente em todo o mundo cerca de 500 milhões de Escrituras. A Bíblia (ou partes) está traduzida em mais de 2.300 línguas diferentes. Em Português há mais de 20 versões, oriundas de Portugal e do Brasil. Foi o primeiro livro saído da imprensa de Gutenberg.

            Há cerca de dois mil anos atrás diz o Evangelho de Lucas que todos os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para o ouvir, e os fariseus e os escribas, criticavam-nO, dizendo: “Este recebe pecadores e come com eles”. Foi então que, entre outras, Jesus contou a história que passo a ler:

            “Um certo homem tinha dois filhos. O mais novo pediu ao pai: “Pai, dá-me a parte da herança que me pertence.” E o pai repartiu os bens pelos dois filhos. Poucos dias depois, o mais novo reuniu tudo o que era dele e partiu para uma terra muito distante, onde gastou o que possuía. Depois de ter gasto tudo, e como houve muita fome naquela região, começou a ter necessidade. Foi pedir trabalho a um homem da região que o mandou para os seus campos guardar porcos. Desejava encher o estômago mesmo com as bolotas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. Foi então que caiu em si e pensou: “Tantos trabalhadores do meu pai têm quanta comida querem e eu estou para aqui a morrer de fome! Vou mas é ter com o meu pai e digo-lhe: “Pai, pequei contra Deus e contra ti. Já nem mereço ser teu filho, mas aceita-me como um dos teus trabalhadores.” Levantou-se e voltou para o pai. Mas ainda ele vinha longe de casa e já o pai o tinha visto. Cheio de ternura, correu para ele, apertou-o nos braços e cobriu-o de beijos. O filho disse-lhe: “Pai, pequei contra Deus e contra ti. Já nem mereço ser teu filho.” Mas o pai ordenou logo aos empregados: “Tragam depressa o melhor fato e vistam-lho. Ponham-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Tragam o bezerro mais gordo e matem-no. Vamos fazer um banquete, porque este meu filho estava morto e voltou a viver, estava perdido e apareceu.” E começaram com a festa.

            Ora o filho mais velho estava no campo. Ao regressar, quando se aproximava de casa, ouviu a música e as danças. Chamou um dos empregados e perguntou-lhe o que era aquilo. E o empregado disse-lhe: “Foi o teu irmão que voltou e o teu pai matou o bezerro mais gordo, por ele ter chegado são e salvo.” Ao ouvir isto, ficou zangado e nem queria entrar. O pai saiu para o convencer. Mas ele respondeu: “Sirvo-te há tantos anos, sem nunca ter desobedecido às tuas ordens, e não me deste sequer um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos. Vem agora este teu filho, que desperdiçou o teu dinheiro com prostitutas, e mataste o bezerro mais gordo.” “Meu filho”, respondeu-lhe, “tu estás sempre comigo e tudo o que eu tenho é teu, mas era preciso fazermos uma festa e alegrarmo-nos, porque o teu irmão estava morto e voltou a viver, estava perdido e reapareceu.” (Lucas 15:11-32).

 

            Permitam-me ainda uma nota pessoal nesta introdução salientando a relevância decisiva da Bíblia na minha formação. Desde a minha mais tenra infância tive o privilégio de ouvir ler histórias como esta que moldam a nossa sensibilidade, norteiam o nosso caminho, alimentam a fé, incendeiam a esperança e nos incutem a certeza do propósito e sentido da existência no amor divino que a todos nos persegue até nos deixarmos por ele envolver e absorver.

            À medida em que fui crescendo sempre procurei testar a credibilidade e autenticidade do ensino bíblico, confrontando-o com os argumentos das religiões, dos agnósticos e dos ateus, e sempre até aqui tem sido fortalecida e consolidada a minha convicção íntima de que a Bíblia é, de facto, a Revelação pessoal e eterna de Deus. Como disse o papa Bonifácio VII (1235-1305), “A Bíblia é a bigorna que tem consumido tantos martelos”.

            Hoje faço coro com Abraham Lincoln (1809-1865), um dos Presidentes dos Estados Unidos, “Eu sou homem de um só Livro – a Bíblia”, não porque não tenha lido e continue a ler muitos outros livros, mas porque à medida que os leio confirmo que a Bíblia é única e singular, que por muito que se leia nunca se saberá o que na verdade importa saber até que se dê atenção e guarida ao que ela diz.

 

O que é a Bíblia?

            Podemos dizer que mais do que um Livro a Bíblia é uma biblioteca de 66 livros dividida em duas partes fundamentais, uma escrita antes do nascimento de Jesus Cristo e que foi o texto que Ele próprio usou e amplamente citou em relação a Si mesmo e à Sua missão, a que chamamos de Antigo Testamento com 39 livros; e o Novo Testamento que foi escrito depois com os restantes 27 livros.

·        Escrita durante um período de mais de 1.500 anos;

·        Escrita durante mais de 40 gerações;

·        Escrita por mais de 40 escritores, envolvidos nas mais diferentes actividades, inclusive reis, camponeses, filósofos, pescadores, poetas, estadistas, estudiosos, etc.:

o       Moisés, um líder político, que estudou nas universidades do Egipto;

o       Pedro, um pescador;

o       Amós, um boiadoeiro;

o       Josué, um general;

o       Neemias, um copeiro;

o       Daniel, um primeiro-ministro;

o       Lucas, um médico;

o       Salomão, um rei;

o       Mateus, um colector de impostos;

o       Paulo, um rabino.

·        Escrita em diferentes lugares:

o       Moisés, no deserto;

o       Jeremias, numa masmorra;

o       Daniel, numa colina e num palácio;

o       Paulo, dentro de uma prisão;

o       Lucas, enquanto viajava;

o       João, na ilha de Patmos;

o       Outros, nos rigores de uma campanha militar.

·        Escrita em diferentes condições:

o       David, em tempos de guerra;

o       Salomão, em tempos de paz.

·        Escrita sob diferentes circunstâncias:

o       Alguns escreveram enquanto experimentavam o auge da alegria, enquanto outros escreveram numa profunda tristeza e desespero.

·        Escrita em três continentes:

o       Ásia, África e Europa.

·        Escrita em três idiomas:

o       Hebraico: a língua do Antigo Testamento;

o       Aramaico: a “língua franca” do Oriente Próximo até à época de Alexandre o Grande (séc. VI a.C. – séc. IV a.C.);

o       Grego: a língua do Novo Testamento – foi o idioma internacional à época de Cristo.

Apesar de toda esta diversidade a Bíblia apresenta uma unidade e coerência admiráveis o que, por si só, é já uma evidência da Sua origem sobrenatural. Tratando dos assuntos mais diversos e até díspares, encontramos uma cosmovisão harmoniosa com princípio, meio e fim, na qual a nossa existência faz sentido, na qual somos arrancados do desespero e do absurdo, do nada e do vazio. A Bíblia narra-nos a História na perspectiva divina em que são reunidos de uma forma magnífica o espiritual e o material; o corpo, a alma e o espírito; o pensamento e a emoção; a razão e os afectos; a cabeça e o coração; o indivíduo e a humanidade no seu todo; o Criador e a criatura; o princípio e o fim; a tragédia do pecado e a festa da redenção; a tristeza e a alegria; a separação e a reconciliação; o sofrimento e o prazer; a morte e a vida. Através dela movemo-nos de eternidade a eternidade, do princípio à consumação de todas as coisas.

A Bíblia contém profundezas abissais em que as mentes mais brilhantes não conseguem divisar os limites e ao mesmo tempo é clara e simples até para uma criança chapinhar e captar as verdades essenciais. Nela os sábios reconhecem a sua ignorância e os ignorantes encontram a verdadeira sabedoria.

F. F. Bruce, Mestre em Ciências Humanas, Doutor em Teologia e Professor da cadeira de Crítica Bíblica e Exegese na Universidade de Manchester na Inglaterra, referiu a este propósito:

“À primeira vista, a Bíblia parece ser uma colecção de literatura, principalmente judaica. Se investigarmos as circunstâncias  em que foram escritos os vários documentos bíblicos, descobriremos que foram escritos aos poucos, durante um período de aproximadamente 1.400 anos. Os escritores escreveram em vários países, desde a Itália, no ocidente, até a Mesopotâmia, e possivelmente a Pérsia, no oriente. Os escritores formavam eles mesmos um grupo heterogéneo de pessoas, não apenas separados uns dos outros por centenas de anos e centenas de quilómetros, mas pertencentes aos mais variados ramos de actividades. Havia reis, boiadeiros, militares, legisladores, pescadores, estadistas, pessoas da corte, sacerdotes e profetas, um rabino fabricante de tendas e um médico gentílico, para não falar de outros de quem nada sabemos, senão os escritos que nos deixaram. Os próprios escritos pertencem a uma grande diversidade de estilos literários. Incluem histórias, lei (civil, criminal, ética, ritual, sanitária), poesia religiosa, textos didácticos, correspondência pessoal, reminiscências pessoais, diários, além dos estilos caracteristicamente bíblicos de literaturas proféticas apocalípticas.

Por tudo isso, a Bíblia não é uma simples antologia; existe uma unidade que dá coesão ao todo. Uma antologia é compilada por antologistas, mas nenhum antologista copiou a Bíblia.”

 

 

Qual o seu conteúdo?

            Podemos dizer de uma forma sintética que a Bíblia apresenta-nos Deus e a condição humana desde as suas origens até ao seu destino.

            A Bíblia vai de eternidade a eternidade em relação a Deus, e do princípio à eternidade em relação ao homem.

            Deus é-nos apresentado antes de tudo o mais como um Ser pessoal distinto da Sua obra, não como uma energia cósmica que se confunde com tudo o que existe. Desta forma surge-nos como o Criador, Sustentador e Restaurador de todas as coisas. Não se trata de um Ser distante, longínquo, alheio e indiferente em relação à Sua criação, mas uma pessoa que aprecia o relacionamento e a intimidade. Neste sentido Deus é revelado não como um ser só mas como Trindade, ou seja, três em um, um só Deus manifesto em três pessoas distintas.

            A natureza de Deus é-nos exposta como ente espiritual omnisciente, omnipotente e omnipresente, absolutamente santo, soberano, pleno, glorioso, sábio, bondoso, amoroso, misericordioso, longânimo e gracioso.

 

            O homem aparece-nos como criação de Deus à Sua imagem conforme a Sua semelhança, criado num gesto de amor e para o amor vivenciado no relacionamento e na intimidade com o seu Criador.

            Esta relação foi rompida pelo próprio homem ao ceder perante a tentação de viver a sua vida de modo independente estabelecendo por si mesmo o bem e o mal, o certo e o errado, descartando o desígnio e o propósito divinos, desprezando o Seu amor e a Sua vontade, menosprezando a Sua companhia e a Sua presença. O homem expulsou Deus da sua vida. Declarou independência e procurou uma falsa auto-suficiência. E isto, ao contrário do que se possa pensar, não foi apenas apanágio do primeiro homem e mulher, mas continua a repetir-se na história individual de cada ser humano, de tal forma que cada um de nós não se pode queixar ou lançar sobre os outros a sua própria responsabilidade e culpa no processo.

            De acordo com a parábola contada por Jesus Cristo que lemos na introdução, o homem abandonou a casa paterna e decidiu ir viver a sua própria vida gastando dissolutamente a herança de saúde espiritual, emocional, física e material que o pai lhe repartiu. Cada homem é apresentado como longe do seu lar que é, nada mais nada menos, do que a casa do Pai.

 

            Mas Deus não ficou de braços cruzados indiferente ao que estava sucedendo, deixando a humanidade entregue a si mesmo. A sua operação de resgate não se limitou única e exclusivamente a enviar alguns avisos, a deixar que o homem sofresse na sua própria pele as consequências das suas decisões, nem a dar-lhe indicações de como deveria viver revelando-lhe princípios e valores indispensáveis à sua conduta que pudessem minimizar os gravíssimos resultados da sua rebeldia.

            A Bíblia apresenta-nos o próprio Deus vindo em busca do homem até à curva do caminho como a parábola acaba por simbolicamente descrever, não Se impondo, não obrigando nem forçando a Sua aceitação.

            O texto bíblico se por um lado nos mostra que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus e pela sua rebeldia esta imagem e semelhança foi distorcida e corrompida, apresenta-nos o mistério insondável do próprio Deus se encarnar na imagem e semelhança da criatura. O Criador apresentou-se na forma da criação. Deus se fez homem. O primeiro homem foi colocado num jardim. Deus não se inibiu de se fazer homem em meio à selva ou ao deserto árido em que a humanidade se tornou, num período marcado pela violência, pela força das armas, pela opressão, pela injustiça e pela segregação, pelo sofrimento e pela dor, pela doença e pela morte.

 

            O centro da Bíblia é precisamente a pessoa de Deus encarnada, fazendo parte da nossa História e mostrando-se de modo pessoal.

            A Bíblia que não se preocupa em argumentar e demonstrar a existência de Deus, embora nos estenda algumas das razões pelas quais racionalmente podemos acreditar, apresenta-nos a maior de todas as evidências e a maior de todas as provas, na Sua própria presença entre nós, em Jesus Cristo.

            Se retirarmos Jesus à Bíblia deixamos de ter Bíblia. A Bíblia tem a sua razão de ser e todo o seu conteúdo em torno da pessoa singular e exclusiva de Jesus Cristo.

            Clara e frontalmente a Bíblia diz que o homem não pode ver Deus nem por si próprio O pode descobrir e conhecer. Por maior que seja a escada que o homem construa, seja ele filósofo ou religioso, cientista ou artista, ficará sempre a uma distância infinita de quem na realidade Ele é.

            Mas se o homem não podia e não pode por si próprio alcançar Deus, Deus veio para alcançar o homem em Jesus Cristo.

 

            O Filho de Deus, a segunda pessoa da Trindade, que nos revela o Pai e vive no poder do Espírito Santo, não é um turista que se passeia pela terra, ou um espião que vem para tomar conhecimento pessoal do que aqui se passa, também não é um polícia celeste ou um juiz que vem com o dedo em riste para lançar acusação e condenação sobre o ser humano.

            Antes pelo contrário encontramos em Jesus os braços do Pai acolhendo os sem abrigo, os marginalizados, os pobres, os rejeitados, os proscritos, os abandonados pelo poder político como pelo poder religioso, sem rejeitar quem quer que seja e, acima de tudo, denunciando os falsos representantes de Deus, iludidos pela sua própria auto-justiça e legalismo, moralismo e piedade.

            Na forma humana o próprio Deus experimenta o que representa a recusa milenar do Seu amor, do Seu perdão, da Sua graça e misericórdia, da Sua presença e intimidade, da Sua vontade e do Seu propósito.

            O Deus que criou num acto de amor vem ao encontro da Sua criatura transviada, dando-lhe a conhecer pessoalmente esse mesmo amor. Efectivamente o amor não pode ser experimentado e vivenciado à distância, mas pelo toque, na proximidade e na intimidade do encontro. Deus se fez próximo do homem. Proximidade tal que o projecto, a intenção, o sonho de Deus é que cada homem e mulher se tornem templos da Sua habitação.

            Neste processo Jesus como Deus e Homem entre os homens experimenta sobre Si mesmo a rejeição, o insulto, o escárnio, a maledicência, a incompreensão, a injustiça, a fome e a sede, o cansaço e por fim a condenação a uma morte ignominiosa, na mais horrenda de todas as formas de pena de morte, a morte na cruz. Em todas estas situações nunca por nunca ser usa o Seu poder para trucidar os Seus inimigos ou algozes. Podia ter esmagado apenas com um pestanejar de olhos todos os que se lhe opunham. Podia, se assim quisesse, acabar com toda a injustiça, egoísmo e maldade de toda a espécie numa fracção de segundo, mas onde é que cada um de nós estaria no momento seguinte.

        Quando o jornal London Times solicitou a diversos escritores que mandassem ensaios sobre o assunto “O que há de errado com o mundo?”, Chesterton respondeu mandando a carta mais curta e directa de todas:

Prezados Senhores

Eu.

Atenciosamente

G. K. Chesterton

(Alma Sobrevivente; Philip Yancey, Mundo Cristão, pp. 61)

            Em Jesus Cristo Deus decidiu-se não pela eliminação da criação que se tornou no que todos nós podemos constatar em nós mesmos e à nossa volta não por algum erro de fabrico, mas por opção livre. O homem não é um robô, mas uma pessoa criada livre e que se tornou escrava de si mesma no seu egoísmo, vã glória, orgulho, inveja e maldade.

É na situação extrema da cruz que Deus manifesta a Sua justiça e a Sua santidade, o Seu amor e o Seu perdão.

            Se por um lado Jesus é pregado por mãos humanas e são os homens que o sentenciam à cruz, não apenas os romanos e judeus daquele tempo, mas cada homem e mulher desde a origem até ao último deles, é o próprio Deus que para trazer reconciliação e perdão não pode de forma alguma absolver ou comutar a desobediência humana e comprometer a Sua própria natureza santa. Na cruz Deus satisfaz plenamente a Sua justiça e realiza o Seu amor. Tudo o que o homem por toda a eternidade devia sofrer em virtude das suas próprias escolhas, Deus acaba por tomar sobre Si mesmo. O Juiz é agora o Réu, para se tornar o Advogado.

            Uma das perguntas mais comuns e mais pertinentes em relação à existência de Deus é porque razão sendo todo-poderoso e amoroso permite o sofrimento e a injustiça, as catástrofes e a maldade principalmente em relação aos inocentes e às crianças. "Na apresentação clássica do problema, ou Deus é todo-poderoso mas não todo-bom e, por conseguinte, não elimina o mal; ou então é todo-bom, mas incapaz de acabar com o mal. E, neste caso, não é todo-poderoso." (Paul Little)

            O assunto é vasto e configura um dos grandes mistérios que rodeia a nossa existência, mas permitam-me abordá-lo mediante uma das ilustrações mais tocantes que já li da autoria do teólogo contemporâneo John Stott:

No fim dos tempos, bilhões de pessoas estavam espalhadas numa grande planície perante o trono de Deus.

A maioria fugia da luz brilhante que se lhes apresentava pela frente. Mas alguns falavam animadamente - não com vergonha abjecta, mas com beligerância.

"Pode Deus julgar-nos? Como pode ele saber acerca do sofrimento?" perguntou uma impertinente jovem de cabelos negros. Ela rasgou a manga da blusa e mostrou um número que lhe fora tatuado num acampamento de concentração nazista. "Nós suportamos terror... espancamentos... tortura... morte!"

Em outro grupo um rapaz negro abaixou o colarinho. "E que dizer disto?" exigiu ele, mostrando uma horrível queimadura de corda. "Linchado... pelo único crime de ser preto!"

Em outra multidão, uma colegial grávida, de olhos malcriados. "Por que devo sofrer?", murmurou ela. "Não foi culpa minha."

Por toda a planície havia centenas de grupos como esses. Cada um deles tinha uma reclamação contra Deus por causa do mal e do sofrimento que ele havia permitido no seu mundo. Quão feliz era Deus por viver no céu onde tudo era doçura e luz, onde não havia choro nem medo, nem fome nem ódio. O que sabia Deus acerca de tudo o que o homem fora forçado a suportar neste mundo? Pois Deus leva uma vida muito protegida, diziam.

De modo que cada um desses grupos enviou o seu líder, escolhido por ter sido o que mais sofreu. Um judeu, um negro, uma pessoa de Hiroshima, um artrítico horrivelmente deformado, uma criança talidomídica. No centro da planície tomaram conselho uns com os outros. Finalmente estavam prontos para apresentar o seu caso.

Antes que pudesse qualificar-se para ser juiz deles, Deus deve suportar o que suportaram. A decisão deles foi que Deus devia ser sentenciado a viver na terra - como homem!

"Que ele nasça judeu. Que haja dúvida acerca da legitimidade do seu nascimento. Dê-se-lhe um trabalho tão difícil que, ao tentar realizá-lo, até mesmo a sua família pensará que ele está louco. Que ele seja traído por seus amigos mais íntimos. Que ele enfrente acusações falsas, seja julgado por um júri preconceituoso, e condenado por um juiz covarde. Que ele seja torturado.

"Finalmente, que ele conheça o terrível sentimento de estar sozinho. Então que ele morra. Que ele morra de tal forma que não haja dúvida de que morreu. Que haja uma grande multidão de testemunhas que o comprove."

E quando o último acabou de pronunciar a sentença, houve um longo silêncio. Ninguém proferiu palavras. Ninguém se moveu. Pois, de súbito, todos sabiam que Deus já havia cumprido a sua sentença." (A Cruz de Cristo; John Stott; Editora Vida; pág. 310,311).

            A resposta cristã ao problema da dor não nos deixa como vítimas indefesas, meros espectadores ou especuladores; Deus mesmo veio e sofreu. Deus mesmo sabe o que é sofrer e o que é morrer na mais brutal agonia tanto física, quanto emocional e espiritualmente, sempre expressando amor e perdão, e abrindo um caminho de esperança para a eternidade. Esta resposta é sem sombra de dúvida a única válida, porque as que sobejam ficam entre o fatalismo de um destino cego ou de um karma inexorável, ou a aniquilação que deixa sem castigo os sanguinários mais insensíveis.

            Jesus que criou o homem à Sua imagem, fez-se nessa mesma imagem. Jesus que como Deus expressou a partir da Sua própria natureza os princípios e os valores que regem o mundo natural e espiritual, moral e ético, na forma humana e em condições muito mais adversas vive integralmente tudo o que enunciou para os homens. Jesus que como Deus decretou, sancionou e aplicou as penalidades devidas à desobediência do homem e da mulher acaba por assumir todas elas até às últimas consequências, oferecendo agora ao homem o que este por si próprio nunca poderia conquistar ou merecer.

            A Bíblia é boas notícias, ou seja, evangelho, mensagem e expressão viva e pessoal de amor, de aceitação incondicional, de perdão, de reconciliação, de fé e de esperança em nova vida. A graça é o cerne do evangelho. Graça é oferta, dom e dádiva. Como escreveu o escritor contemporâneo inglês John Stott: “Se existe para a raça humana notícia melhor do que esta, eu pelo menos nunca ouvi.” (Ouça o Espírito Ouça o Mundo; John Stott; ABU; pp.48)

            O homem e a mulher são reconciliados com Deus a partir do que Deus mesmo realizou e concretizou a nosso favor. Na cruz temos o triunfo do amor sobre o ódio, do perdão sobre a vingança, da reconciliação sobre a contenda, da justiça sobre a injustiça e do bem sobre o mal, antes de tudo o mais porque não apenas Cristo morreu substituindo-nos e satisfazendo a justiça divina mas também porque ressuscitou como prova insofismável da validade e credibilidade do que realizou. Aquele que se apresentou a Si mesmo como a vida não podia ser dominado pela morte. Ao longo dos três anos do Seu ministério Jesus fez afirmações verdadeiramente estrondosas sobre Si mesmo, que nenhum outro em tempo algum alguma vez poderá ultrapassar ou igualar, senão vejamos:

            “Eu sou o caminho, a verdade e a vida (...). Ninguém pode chegar ao Pai sem ser por mim.” (João 14:6).

            “Eu sou a ressurreição e a vida. O que crê em mim, mesmo que morra, há-de viver. E todo aquele que está vivo e crê em mim, nunca mais há-de morrer.” (João 11:25,26).

            “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.” (João 10:10).

            Todas estas afirmações e muitas outras mais relacionadas à identidade de Cristo foram plenamente legitimadas na ressurreição. Aquele que é a vida venceu a morte espiritual que consiste na separação do homem de Deus, e a morte física a que corresponde a promessa da vida eterna e da ressurreição final de todos os filhos de Deus para uma nova era de paz e justiça.

 

            Um brado de vitória ecoa nas páginas da Bíblia porque Aquele que morreu não ficou prisioneiro da morte, mas vive para todo o sempre. A Páscoa não é sinal de luto ou de tristeza, mas de triunfo e de celebração jubilosa. A cruz está vazia e o túmulo também.

            A Bíblia apresenta-nos um Redentor vivo como o maior de todos os factos da História Universal e da possível história de cada homem e mulher. Porque Cristo ressuscitou nós podemos viver uma vida com abundância aqui e agora, no tempo e no espaço, e por toda a eternidade. Não se trata de um mito ou de uma lenda, não é um romance nem uma ficção. Se Cristo não ressuscitou o apóstolo Paulo declara que a fé cristã não tem validade alguma e seria o maior de todos os embustes. A fé cristã cai ou permanece de pé face à ressurreição de Cristo. A fé cristã é eminentemente histórica, está assente em factos fora dos quais não faz sentido. A Igreja cristã teve início a partir da declaração de que Jesus ressuscitara. Se Ele não tivesse ressuscitado facilmente a igreja cristã poderia ter sido morta à nascença.

            Os discípulos de Jesus que debandaram quando Ele foi crucificado enfrentaram as ameaças, as perseguições e as penas de morte mais cruéis única e exclusivamente pela convicção absoluta de que o Seu Senhor e Salvador havia ressuscitado porque O viram vivo. Como disse um escritor cristão: alguém pode estar disposto a morrer por algo que acredita ser verdadeiro embora seja mentira, mas ninguém está disposto a morrer pelo que sabe de antemão ser mentira.

            Os discípulos dispuseram-se a enfrentar tudo e todos porque sabiam com toda a certeza que Jesus ressuscitara. Eles aceitaram o Seu desafio para O seguirem, andaram, comeram e beberam com Ele; ouviram o Seu ensino e presenciaram os Seus milagres, apreciaram-nO nos Seus mais pequenos gestos e foram embevecidos com a Sua maravilhosa graça, viram-nO morto e viram-nO ressuscitado. Só este facto explica a sua intrepidez depois da sua cobardia.

 

Qual o valor e importância da Bíblia?

            A Bíblia tem um inegável valor cultural, literário, ético e moral, mas passaremos sempre muito ao largo da sua verdadeira importância se ignorarmos a sua autoria e personagem principal.

            Muitos têm sido os que se têm pronunciado sobre a Bíblia e a têm enaltecido, é tarefa impossível de concretizar tentar reunir tudo o que sobre ela já foi dito e escrito. Mas temos a certeza absoluta que nunca ninguém dirá sobre ela mais do que ela fala de si mesma.

            O Dr. António José D’Almeida (1866-1929), médico, escritor, estadista português e grande orador republicano escreveu que “a Bíblia é a glória imortal da humanidade”; nos Lusíadas (canto I, estância 66), obra maior da poesia portuguesa, escreveu Luís de Camões (1524-1580): “... Deste Deus-Homem, alto e infinito, / Os livros que tu pedes, não trazia, / Que bem posso escusar trazer escrito / Em papel o que na alma andar devia”; o historiador e romancista português Alexandre Herculano (1810-1878) a propósito escreveu: “Para o povo ser livre, é necessário que seja religioso e honesto; não que seja crédulo. Para que ele seja religioso e honesto é necessário que conheça as doutrinas das Escrituras Sagradas”; Camilo Castelo Branco, outro romancista português, rematou: “O Evangelho responde às necessidades da nossa alma com o amor de Deus, de outro modo não se salvaria o mundo”; Eça de Queiroz outro nome grande da nossa literatura falou nestes termos: “Aprecio a beleza da Santa Bíblia. A Bíblia, a grande lição e a grande consolação. Fazíamos, por vezes, achados bem singulares: - e ainda recordo o meu deslumbramento quando descobri esta imensa novidade – a Bíblia”; Almeida Garret (1799-1854) denunciou com veemência “Fez-se crime até da leitura dos livros santos, chamou-se sacrilégio o próprio estudo da Lei de Deus! Ignorância sacra, estúpida, a maior inimiga do cristianismo”; e terminamos com uma citação do Padre António Vieira: “A Bíblia contém a mente de Deus, a condição do homem, o caminho da Salvação, a condenação dos pecadores, e a felicidade dos crentes. Suas doutrinas são santas, seus preceitos são justos, suas Histórias verdadeiras e suas decisões imutáveis. Leia a Bíblia para ser um sábio, creia nela para estar seguro e pratique-a para ser santo. Ela contém luz para dirigi-lo, alimento para sustê-lo, e consolo para animá-lo”.

            A Bíblia apresenta-se-nos como Palavra de Deus. Reivindica para si mesma inspiração divina por cerca de 3.800 vezes.

            Muitas evidências se podem apresentar disso mesmo mas a maior de todas elas é sem dúvida alguma o testemunho do próprio Cristo na Sua identidade, na Sua vida, nas Suas atitudes, nos Seus milagres, na Sua morte e ressurreição. Constantemente Jesus apela para as Escrituras e as expõe diante dos ouvidos, das mentes e dos corações maravilhados pela Sua sabedoria. Ele foi sempre um homem da Palavra. Apresentou-a e explicou-a como a Sua própria Palavra, que de Si mesmo testemunha apelando para a Sua autoridade declarando em termos muito precisos: “Está escrito!”. Por fim acaba por tornar-se a prova inequívoca de que ela é a Palavra de Deus, ao demonstrar a Sua identidade divina pela Sua vida, pelo Seu ensino, pelos Seus milagres, pela Sua morte e ressurreição.

É daqui que decorre a singularidade espiritual do texto bíblico apontando ao homem e mulher de qualquer cultura, raça, língua, estatuto social, conduta, religião ou filosofia, o plano de reconciliação de Deus com o homem e a possibilidade de uma real e verdadeira transformação por dentro que leva o homem a tornar-se co-participante da natureza divina e templo da Sua habitação.

            A Bíblia é um livro para se ler e para se escrever, mas muito mais do que isso é um livro vivo que comunica vida e que só se aprecia e saboreia verdadeiramente vivendo-o. A Bíblia aborda a vida e comunica vida. A Bíblia é um livro pessoal e desenvolve a consciência singular de sermos pessoas. A Bíblia é um livro de relacionamentos e nos franqueia as portas do maior e mais decisivo de todos os relacionamentos que é o relacionamento com o Pai através de Jesus Cristo – o Seu Filho. A Bíblia é um livro de família que nos mostra como em Cristo podemos ser feitos filhos de Deus.

 

            O clímax de todas as evidências acerca da Bíblia e da obra realizada por Jesus Cristo é a transformação de vida pessoal. Tudo o resto é o alicerce sólido da experiência, mas sem essa mesma experiência tudo não passa de mera religiosidade formal, teoria e retórica, argumentação intelectual e conjunto de regras de conduta que sendo individual e socialmente positivas, não logram atingir o essencial – a natureza e a condição humana.

            A Bíblia não pretende apenas mudar o nosso comportamento, mas transformar a nossa essência espiritual. A encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus têm como objectivo último proporcionar-nos uma nova oportunidade, um novo nascimento, um novo começo e a vida eterna. Como disse Galileu Galilei (1564-1642), físico e astrónomo italiano nascido em Pisa, “A Bíblia não nos foi dada para sabermos como é o céu, mas como irmos para o céu”.

            A Bíblia que começa com o homem enquanto criação divina termina elevando à condição de filhos de Deus todos os que recebem e crêem em Jesus. De criação a filhos membros da sua família, tendo em Deus não apenas o Criador mas o Pai, melhor dizendo ainda – o paizinho, segundo o testemunho do Espírito traduzido no Novo Testamento por “Aba Pai”.

            A um religioso do Seu tempo que O veio visitar pela calada da noite reconhecendo-O como Mestre vindo da parte de Deus, Jesus foi muito claro e objectivo: “Fica sabendo que ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo”. Aturdido o fariseu perguntou “Como é que um homem idoso pode voltar a nascer? Pode entrar no ventre de sua mãe e nascer outra vez?”. Jesus explicou-lhe “Fica sabendo que só quem nascer da água e do Espírito é que pode entrar no reino de Deus. O que nasce de pais humanos é apenas humano, o que nasce do espírito é espiritual. Não te admires por eu te dizer: é preciso nascer de novo”. Diante da sua continuada estupefacção Jesus acabou por desabafar: “Tu és um dos mestres do povo de Israel e não sabes estas coisas? Repara bem no que te vou dizer: quando falamos é porque sabemos e quando afirmamos alguma coisa é porque vimos, mas não querem aceitar o que eu vos digo. Se não acreditam em mim quando vos falo das coisas deste mundo, como podem crer quando vos falar das do Céu?” (João 3).

 

            Luís de Camões, o nosso maior poeta de todos os tempos, escreveu um soneto intitulado “Verdade, Amor, Razão, Merecimento”, que encerra no seu fecho, uma das declarações que mais aprecio em toda a literatura portuguesa e com a qual me identifico em absoluto:

 

Verdade, Amor, Razão, Merecimento

Qualquer alma farão segura e forte;

Porém, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte

Têm do confuso mundo o regimento.

 

Efeitos mil revolve o pensamento,

E não sabe a que causa se reporte;

Mas sabe que o que é mais que vida e morte

Que não o alcança humano entendimento.

 

Doutos varões darão razões subidas,

Mas são experiências mais provadas,

E por isso é melhor ter muito visto.

 

Cousas há i que passam sem ser cridas,

E cousas cridas há sem ser passadas;

Mas o melhor de tudo é crer em Cristo.

 

 

Conclusão

            Terminamos da mesma forma como começámos, com uma citação de um texto bíblico, no caso o discurso do apóstolo Paulo no areópago ateniense, centro da cultura e da disputa filosófica daqueles tempos. Hoje como ontem em meio ao pluralismo religioso e ao relativismo moral, importa que humildemente nos tornemos receptivos à revelação que o próprio Deus nos dá acerca de Si e de nós. Ontem como hoje precisamos ouvir Deus falar e desafiar-nos à fé que é gerada em nós pela Sua própria Palavra. Hoje como ontem necessitamos conhecer o Deus tantas vezes desconhecido e distorcido, lançar fora as máscaras e as falsas representações do divino e da espiritualidade. Há dois mil anos Paulo falou assim:

            “Atenienses, vejo que são em tudo muito religiosos. Com efeito, quando dei uma volta pela cidade e vi os vossos monumentos religiosos, reparei num altar que tinha ainda estas palavras escritas: ‘Ao Deus desconhecido.’ Pois bem, esse Deus que adoram sem o conhecer, é o Deus de que eu vos falo. É o Deus que fez o mundo e tudo o que nele se encontra, e é o Senhor do Céu e da Terra. Não habita em templos feitos pelos homens, nem precisa que os homens lhe façam coisa nenhuma, pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, a respiração e tudo o mais. Deus criou primeiro um homem e desse vieram todas as raças humanas que vivem no mundo inteiro. Foi ele mesmo quem marcou os tempos e os lugares onde os povos deviam morar. Fez isso para que o pudessem procurar e se esforçassem por encontrá-lo. De facto, ele não está longe de cada um de nós. É nele que temos a vida, nele nos movemos e existimos. Como alguns dos vossos poetas também disseram: ‘Nós até somos da família de Deus.’ Sendo nós então da família de Deus, não devemos pensar que Deus seja parecido com uma imagem de ouro, de prata ou de pedra, feita pela arte e pela imaginação dos homens. Deus passou por cima da ignorância das pessoas, até aos dias de hoje. Mas agora, ele ordena que toda a gente, em toda a parte, se arrependa dos seus pecados. Marcou um dia para julgar o mundo com justiça, por meio dum homem a quem designou e deu autoridade diante de todos, ressuscitando-o de entre os mortos.” (Actos 17:22-31).

 

            Diante do tribunal religioso judaico o apóstolo Pedro declarou: “Este Jesus, como diz a Sagrada Escritura, é a pedra que vocês, os construtores, rejeitaram, mas que veio a tornar-se a pedra principal. E não há salvação em nenhum outro, pois em todo o mundo não há mais ninguém, dado por Deus à humanidade, que nos possa salvar”. (Actos 4:11,12).

 

            Concluo com três ilustrações históricas da forma como ao longo dos séculos a Bíblia tem sido exposta:

Quando Julius Dammann ocupou o púlpito pela primeira vez, leu no terceiro capítulo do Evangelho de João: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o seu Filho unigénito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” Depois inclinou-se para a frente, e disse: “De todas as palavras da Bíblia, não há nenhuma de que eu tenha mais medo do que da palavra perecer. Nós podemos ficar eternamente perdidos, ao ponto de o próprio Deus se retirar de nós. Isso é o inferno! (Wilhelm Busch; Jesus Nosso Destino; Núcleo; pp. 73)

 

Um pregador teve um sonho no qual ele estava sendo chamado ante o tribunal de Deus. Ele esperava um grande livro e um grande Deus fazendo a leitura. Ao invés disso, o que ele viu em seu sonho foi um gigantesco par de pratos de balança. De um lado os anjos empilhavam tudo de bom que ele havia feito, e do outro lado os demónios empilhavam suas más acções. Havia feito muita coisa boa. Afinal de contas, era um pregador. Mas para seu horror os anjos não estavam conseguindo manter o equilíbrio e a balança pendia para o lado mau. Então, gritou chorando, “Ó Cristo, tem misericórdia!”

           Naquele momento ele ouviu o estrondo de três gotas de sangue caindo no lado bom. Elas não pareciam tão pesadas para tamanho barulho. Afinal, qual é o peso de três gotas?

           Mas quando elas caíram na balança, o prato pendeu para o lado bom, e nada que os demónios colocassem no outro lado parecia adiantar. Aquelas gotas, claro, haviam saído do corpo de Jesus Cristo. (Quando Ser Bom Não Basta, Stephen Brown, Vida, pp. 117)

 

Mais uma história: Numa noite, depois do culto na igreja, um jovem foi ter com o grande pregador inglês Charles Haddon Spurgeon, e disse-lhe: “Pastor, o senhor tem razão. Eu também preciso de me encontrar com o homem do Calvário e tornar-me filho de Deus. Hei-de converter-me qualquer dia.” “Qualquer dia?” – perguntou Spurgeon. “Sim, mas mais tarde.” “Mais tarde? Por que não hoje?” Uma expressão de embaraço atravessou o rosto do jovem, mas ele respondeu: “É evidente que quero ser salvo, e é por isso que tenciono converter-me um dia. Antes disso, contudo, desejo gozar um pouco a vida.” Spurgeon desatou a rir e disse então: “Jovem, você não tem grandes ambições na vida. Eu não me contentaria em gozar um pouco a vida. Eu quero muito mais da vida. Eu quero vida em abundância. Na Bíblia, lemos (e ele mostrou-lhe a passagem): “Disse Jesus: Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância.” (Wilhelm Busch; Jesus Nosso Destino; Núcleo; pp. 60)

 

            Como disse Churchill eu sou uma pessoa exigente, só me contento com o melhor. Espero que esse também seja o seu caso!

 

 

Samuel R. Pinheiro

www.samuelpinheiro.com