FANÁTICO DA GRAÇA

Comunicação apresentada em representação da Aliança Evangélica Portuguesa nas 2ªs Jornadas Interconfessionais realizadas sob o tema genérico "Jesus, a Palavra Viva", no auditório da Fundação Eng. António de Almeida, na cidade do Porto, a 30 de Outubro de 2004.

 

            Tomaremos como base da nossa comunicação o texto de abertura do Evangelho escrito pelo apóstolo João e o texto do segundo capítulo da carta aos Efésios escrito pelo apóstolo Paulo, que desde já passamos a citar:

            “No princípio era a Palavra.

A Palavra estava com Deus,

e a Palavra era Deus.

Aquele que é a Palavra estava no princípio com Deus.

Todas as coisas foram feitas por meio dele,

e sem ele nada foi criado.

Nele estava a vida,

vida que era a luz dos homens.

A luz brilha nas trevas, trevas que não a venceram.

Houve um homem enviado por Deus que se chama João.

Ele veio para dar testemunho,

para dar testemunho da luz,

para que todos cressem por meio dele.

João não era a luz,

mas foi enviado para dar testemunho da luz.

Aquele que é a Palavra era a luz verdadeira.

Ele ilumina toda a gente ao vir a este mundo.

Ele estava no mundo,

mundo que foi feito por ele.

O mundo não o conheceu.

Ele veio para o seu próprio povo

e o seu povo não o recebeu.

Mas a todos quantos o receberam,

aos que crêem nele,

deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.

Estes não nasceram de laços de sangue,

nem da vontade da carne,

nem da vontade do homem,

mas nasceram de Deus.

A Palavra fez-se homem

e veio habitar entre nós,

e nós contemplámos a sua glória,

como glória do Filho único do Pai,

cheio de graça e de verdade.

João deu testemunho dele ao proclamar: ‘Era deste que eu dizia: Aquele que vem depois de mim é mais importante do que eu, porque já existia antes de mim.’ Todos nós participámos da abundância dos seus bens divinos e recebemos continuamente as suas bênçãos. É que a Lei foi-nos dada por intermédio de Moisés, mas a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo. Nunca ninguém viu Deus. Só o Deus único, que está no seio do Pai, o deu a conhecer.” (Jo 1:1-18).

 

            “Outrora estavam mortos, por causa dos vossos delitos e pecados. O espírito deste mundo levava-vos a viverem dessa maneira. Andavam sujeitos ao chefe das forças do mal, àquele que ainda agora actua nos que são desobedientes a Deus. Todos nós estávamos na mesma condição, dominados pelos nossos maus desejos. Obedecíamos a esses maus desejos e pensamentos, e estávamos naturalmente destinados, como os outros, a receber o castigo de Deus.

Mas Deus, que é rico em misericórdia, mostrou por nós um grande amor. Estando nós mortos, por causa dos nossos delitos, ele deu-nos a vida juntamente com Cristo. É pela sua graça que estão salvos. Pois Deus ressuscitou-nos juntamente com Cristo Jesus e com ele nos fez tomar parte no seu reino celestial. Desta maneira, quis mostrar para sempre a todos os que hão-de existir a imensa riqueza dos favores que nos concedeu por meio de Jesus Cristo.

Porque é pela graça que estão salvos, mediante a fé. E isto não é mérito vosso, é dom de Deus. Não vem das obras para que ninguém se glorie. Pois somos obra das suas mãos, criados em Cristo Jesus para vivermos na prática das boas obras, as quais de antemão Deus preparou para nós.” (Ef 2:1-10).

 

A graça da revelação.

            Centramos a nossa apresentação na Bíblia como Palavra de Deus que contém a revelação total e final para nós, porque ela mesma é a base fundamental do entendimento da graça. Sendo ela mesma parte da graça de Deus para com a humanidade, só através dela podemos tomar conhecimento acerca da graça como forma de Deus se relacionar connosco e nós nos podermos relacionar com Ele e uns com os outros.

            Consideramos que é essencial manter e se possível aprofundar a importância e o valor decisivo da Bíblia na vivência cristã, fazer dela o alicerce do nosso pensamento e da nossa acção, estruturar as nossas convicções a partir do seu conteúdo, afastando os fantasmas do fundamentalismo e da intolerância.

            Apesar de todo o respeito que nutrimos por todas as correntes de opinião, por todas as filosofias e por todas as correntes religiosas, quaisquer que sejam, isso não belisca nem compromete a nossa convicção de que a revelação divina se encontra nos textos da Bíblia Sagrada. É a ela que nos dirigimos para saber de facto Quem Deus é e qual o Seu plano e desígnio para a nossa vida. Apesar de admitirmos que Deus se nos revela através de tudo o que nos rodeia e nos envolve, e até de podermos divisar essa revelação em nós mesmos, na nossa capacidade de nos interrogarmos e de reflectirmos sobre as nossas interrogações, ainda assim consideramos que o fio-de-prumo de todas essas evidências se encontra na revelação escrita. O que fica ou o que vai além, não merece a nossa confiança.

            Não partilhamos a ideia de que precisamos conseguir qualquer compromisso com a cultura dominante ou com as várias expressões religiosas. Também somos claros em afirmar que o referencial pelo qual avaliamos a verdade das ideias sobre Deus é precisamente o que a Bíblia nos diz. Não partilhamos da opinião de que todas as ideias ou pontos de vista sobre Deus sejam igualmente válidos. Consideramos que tudo o que o homem possa imaginar ou dizer sobre Deus só é aceitável quando validado pela revelação bíblica.

            Isto não significa que não possamos empenharmo-nos em entender de forma rigorosa e objectiva o que pensa sobre Deus e sobre a vida em geral qualquer corrente religiosa, e que porventura não encontremos alguns paralelismos. Estes todavia não são argumento para tomarmos o todo pela parte, nem a parte pelo todo. O crivo pelo qual avaliamos a validade das ideias sobre Deus restringe-se unicamente ao texto da Bíblia.

            Também não deixa de ser verdade que o conhecimento da cultura em que nos movemos é importante para comunicarmos e expressarmos a fé. Gostaríamos todavia de deixar aqui uma nota no sentido de termos consciência de que precisamos aproximarmo-nos da Bíblia com a humildade de quem quer aprender e não com a arrogância e sobranceria de quem sabe tudo e é juiz na matéria.

 

 

A revelação da graça.

            Deus não se limitou a falar. Deus veio ao nosso encontro. Não temos apenas um livro entre as mãos. Deus faz parte da nossa própria História.

            A vida é uma marca constante de todo o texto bíblico. Ao longo de toda a Bíblia Deus se nos vai revelando no concreto da História, através de homens e mulheres de carne e osso, através das suas famílias e tribos, através dos povos e nações que constituíram, às quais não faltam os grandes impérios que marcaram a antiguidade.

            Mas a vida que por excelência nos é apresentada é a vida do próprio Deus na forma humana em Jesus Cristo. É através dele que a graça e a verdade tomam forma.

            Não quer dizer que elas sejam uma absoluta novidade porque podemos encontrar a sua presença ao longo de toda a trajectória na acção divina até Cristo. Mas é em Jesus que ela atinge o seu apogeu na demonstração da presença divina, na Sua pessoa, nas Suas palavras e nos Seus actos em concreto.

            A graça de que o Filho de Deus é portador expressa-se de forma muito particular nos Seus encontros pessoais, de onde destacamos o encontro com Nicodemos e com a mulher samaritana.

            Cada pessoa foi tratada por Cristo na sua singularidade própria. Não encontramos um esquema único ao qual se subordinava cada um dos encontros mencionados nos evangelhos.

            Entre Nicodemos e a mulher samaritana vão muitas diferenças que a cultura do tempo acentuava. O primeiro deles procurou-O, o outro foi procurado. Em boa verdade podemos dizer que de uma forma ou de outra todos eles, bem como cada um de nós, somos procurados quando procuramos e talvez procuremos, sem saber que estamos a ser procurados. Em qualquer dos casos cada um deles recebeu toda a atenção da parte do Mestre. Cada um deles foi acolhido incondicionalmente e de forma directa conduzida ao cerne da vontade e do propósito de Deus, no qual reside o desígnio da criatura humana.

            A Nicodemos, homem religioso, Jesus afirmou categoricamente: “Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.” (Jo 3:3).

            À mulher samaritana Jesus declarou entre outras coisas: “Se conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva.” (Jo 4:10).

            A revelação da graça que atinge a sua plenitude na pessoa de Jesus Cristo tem a sua essência na forma como Ele se aproxima das pessoas, como Ele as acolhe, como responde às suas questões mais íntimas, como Ele descobre os mais profundos segredos do ser humano sem machucar e sem destruir, como Ele confronta com a verdade sem condenar, como Ele vai em busca dos mais desamparados e marginalizados, como Ele toca nos totalmente excluídos e indesejados, como Ele denuncia a justiça própria e a arrogância espiritual, como Ele desmonta a hipocrisia e a falsa sinceridade, como Ele fica em silêncio diante dos falsos argumentos e das dúvidas que escondem apenas o orgulho e a sobranceria.

            Como me sinto longe de poder entender o que significou naquele tempo Jesus se ter deixado aproximar pelos leprosos e de os ter tocado, de se ter deixado adorar por eles, de os ter acolhido e ouvido nas suas mais profundas necessidades.

            Como me sinto distante de poder entender o que significou Jesus ter acolhido os publicanos e pecadores e ter sido acusado de ser amigo deles.

            Como tenho dificuldade em perceber o que representou naqueles dias ter falado com mulheres, de ter sido anunciado por elas, de ter perdoado os pecados de uma adúltera, de ter sido tocado por uma mulher com um fluxo de sangue.

            Como se torna difícil conseguir alcançar tudo o que naqueles dias significou tomar nos seus braços as crianças, abençoá-las e tomá-las como modelo em relação ao Reino de Deus.

            Como se torna difícil entender o que representou a recusa de Cristo na cruz, face aos insultos e desafios dos religiosos que requeriam que dela saísse para que n’Ele cressem.

            Como se torna difícil entender a Sua atitude para com um dos malfeitores crucificado ao Seu lado, prometendo-lhe que logo mais se encontrariam no Paraíso.

            A graça não é um conceito abstracto, meramente doutrinário ou teológico, vai muito além de qualquer conteúdo filosófico e só é percebido nesse relacionamento restaurado de Deus com as Suas criaturas tal e qual como elas se encontram, sem condições prévias, sem qualquer merecimento.

            E é com base nessa graça que começa a maior de todas as transformações, no coração do homem e da mulher, para uma nova vida que se expressa num relacionamento pessoal com o Criador e com cada uma das Suas criaturas qualquer que seja a sua raça, condição social, língua ou cultura a caminho de uma sociedade em que toda a injustiça será expurgada.

            A parábola do filho pródigo há-de permanecer como a história mais singela e mais eloquente acerca do amor do Pai não entendido por nenhum dos seus filhos, mas que se revela em cada uma das etapas e para o qual não existe substituto. Fomos criados para o amor.

            No fim do filme “Bruce o Todo-Poderoso” o personagem que quis ser Deus coloca-Lhe, para mim, uma das maiores questões: “Como é possível fazer com que alguém nos ame?” Em tom irónico Deus responde que desde a eternidade procura essa resposta. A verdade é que Deus em Cristo fez tudo o que haveria para fazer – o maior de todos os argumentos reside na cruz. A essência do evangelho encontra-se no evangelho de João no capítulo 3 e no versículo 16: Deus amou de tal modo o mundo que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crer não se perca, mas tenha a vida eterna”.

            Juntos em Jesus pela Palavra! A Bíblia e a Cruz muito mais do que uma imagem num logótipo! O cerne da existência, da vida, da esperança e da fé.

 

 

A graça da criação.

            A revelação de que somos criação especial de Deus dá-nos uma perspectiva totalmente diferente da nossa essência e existência. Fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, uma imagem e semelhança que acolheu o próprio Deus na Sua encarnação. Deus nos fez à sua imagem e Deus se encarnou à nossa imagem.

            Não existimos para o nada. A nossa vida não é um absurdo.

            Qualquer que seja a forma pela qual Deus trouxe à existência tudo o que existe certamente que ela se conjuga e harmoniza com o amor. Não consigo percebê-la como resultado da lei do mais forte, mas como manifestação e expressão de amor.

            Não é possível à luz do Evangelho entender o Paraíso por vir a partir da lei do mais forte, mas da vitória da graça e da verdade que em Jesus se tornaram carne.

            Retirar Deus da origem de todas as coisas, por muito capazes que sejam as explicações dadas pela ciência, é abandonar o homem e a humanidade a um vazio que nada pode preencher. Não que recusemos o papel da ciência, mas consideramos que ele só faz sentido à luz da existência e da relação pessoal com Deus.

            Retirar o amor de Deus do acto da criação é comprometer toda a história da salvação.

 

 

A graça da própria lei.

            A graça conduz-nos à obediência e expressa-se através da própria obediência. Não há verdadeiro amor onde a desobediência e a rebeldia campeiam.

            Os princípios éticos e morais que Deus nos deu têm a Sua maior força persuasiva na graça. A observação da lei que não nos impele ao reconhecimento da nossa falência perante a santidade divina, redunda em legalismo. É pela graça que alcançamos vida. As regras são importantes, mas sem graça tornam-se em geradoras de morte e desolação.

            Como é continuamente actual a história que Jesus contou acerca do fariseu e do publicano que subiram ao templo para orar. Em meio à contabilidade das virtudes e dos méritos enunciados pelo fariseu bem como da condenação do publicano, não encontrou justificação, paz com Deus. Por seu turno o publicano, face a todo o seu fracasso reconhecido e assumido na busca sincera de perdão, foi justificado.

            Deus não pactua com o pecado humano, com os vícios e com os crimes, mas ama incondicionalmente cada um dos prevaricadores e recebe-os de braços abertos, quando respondem afirmativamente ao Seu amor.

 

 

A graça da salvação.

            A verdade genuína e transparente do evangelho que o torna efectivamente evangelho, ou seja “boas novas”, é a graça que Deus nos estende e que nós abraçamos pela fé.

            A maior parte das vezes a religião é movida pelo medo, pela culpa, pela condenação.

            O evangelho é movido pela graça divina, pelo Seu amor incondicional, pela Sua aceitação.

            Como é nevrálgico que entendamos e vivamos isto, tornando-nos portadores desta verdade.

            O apóstolo Paulo que conheceu profundamente o que a religião do medo e do legalismo representa tornou-se, depois do seu encontro com Cristo, um incansável proclamador da graça divina.

            Tanto hoje como ontem a cruz de Cristo é escândalo e loucura. Admitir que Deus tenha requerido de Si mesmo o sacrifício de Jesus Cristo para que pudéssemos ser reconciliados, satisfazendo plenamente a Sua justiça em amor, é inaceitável para algumas mentalidades. No entanto é precisamente aqui que a graça atinge a Sua verdadeira dimensão e essência de absoluto.

            Apelamos aqui ao teólogo inglês contemporâneo John Stott na exposição que faz desta matéria tão essencial quanto pertinente em relação à nossa reconciliação com Deus, na sua obra que muito apreciamos e recomendamos “A Cruz de Cristo”, da Editora Vida:

“Rejeitamos fortemente toda a explicação da morte de Cristo que não possui no centro o princípio da ‘satisfação através da substituição’, em verdade, a auto-satisfação divina através da auto-substituição divina. A cruz não foi uma troca comercial feita com o diabo, muito menos uma transacção que o tenha tapeado e apanhado numa armadilha; nem um equivalente exacto, um quid pro quo que satisfizesse um código de honra ou um ponto técnico da lei; nem uma submissão compulsória da parte de Deus a uma autoridade moral acima dele da qual ele, de outra forma, não poderia escapar; nem um castigo de um manso Cristo por um Pai severo e punitivo; nem uma procuração de salvação por um Cristo amoroso de um Pai ruim e relutante; nem uma acção do Pai que deixasse de lado a Cristo como Mediador. Em vez disso, o Pai justo e amoroso humilhou-se, tornando-se em seu Filho unigénito e através dele carne, pecado e maldição por nós, a fim de remir-nos sem comprometer o seu próprio carácter. Necessitamos cuidadosamente definir e salvaguardar os termos teológicos “satisfação” e “substituição”, mas não podemos, em circunstância alguma, abrir mão deles. O evangelho bíblico da expiação é Deus satisfazendo-se a si mesmo e substituindo-se a si mesmo por nós.

      Pode-se dizer, portanto, que o conceito da substituição está no coração tanto do pecado quanto da salvação. Pois a essência do pecado é o homem substituindo-se a si mesmo por Deus, ao passo que a essência da salvação é Deus substituindo-se a si mesmo pelo pecado. O homem declara-se contra Deus e coloca-se onde Deus merece estar; Deus sacrifica-se a si mesmo pelo homem e coloca-se onde o homem merece estar. O homem reivindica prerrogativas que pertencem somente a Deus; Deus aceita penalidades que pertencem ao homem somente.

      Se a essência da expiação é a substituição, seguem-se pelo menos duas importantes inferências, a primeira teológica e a segunda pessoal. A inferência teológica é que é impossível manter-se a doutrina histórica da cruz sem se manter a doutrina histórica de Jesus Cristo como único Deus-homem e Mediador. Como já vimos, nem Cristo somente como homem nem o Pai somente como Deus podia ser nosso substituto. Somente Deus em Cristo, o unigénito Filho do próprio Deus Pai feito homem, podia tomar o nosso lugar. Na raiz de cada caricatura da cruz jaz uma cristologia distorcida. A pessoa e obra de Cristo vão juntas. Se ele não é quem os apóstolos dizem que é, então não podia ter feito o que dizem que fez. A encarnação é indispensável à expiação. Em particular, é essencial à afirmação de que o amor, a santidade e a vontade do Pai são idênticos ao amor, santidade e vontade do Filho. Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo.

      Talvez nenhum outro teólogo do século vinte tenha visto essa verdade mais claramente, ou a tenha expressado mais vigorosamente, do que Karl Barth. A cristologia, insistia ele, é a chave da doutrina da reconciliação. E cristologia significa confessar que Jesus Cristo, o Mediador, repetiu ele várias vezes, é “o próprio Deus, o próprio homem, e o próprio Deus-homem”. Há, pois, “três aspectos cristológicos” ou “três perspectivas” para a compreensão da expiação. O primeiro é que “em Jesus Cristo temos de ver com o próprio Deus. A reconciliação do homem com Deus acontece quando o próprio Deus activamente intervém”. O segundo é que “em Jesus Cristo temos de ver com o verdadeiro homem... É assim que ele se torna o reconciliador entre Deus e o homem”. O terceiro é que, embora sendo o próprio Deus e o próprio homem, “Jesus Cristo é um. Ele é o Deus-homem”. Somente quando se afirma esse relato bíblico de Jesus Cristo, pode-se compreender a singularidade de seu sacrifício expiador. A iniciativa está “com o próprio Deus eterno, que deu-se a si mesmo em seu Filho para ser homem, e, como homem, tomar sobre si mesmo esta paixão humana... É o Juiz que nesta paixão toma o lugar daqueles que deviam ser julgados, que nesta paixão permite ser julgado em lugar deles”. “A paixão de Jesus Cristo é o juízo de Deus, no qual o próprio Juiz foi julgado”. (John Stott; A Cruz de Cristo; Vida; pp. 144)

 

            Neste caso como em qualquer outro ficamos com a teologia do próprio Espírito Santo, em vez da opinião de qualquer outra fonte, por mais interessante e simpática que seja.

            Não é nossa função ser politicamente correctos quando se trata da maneira como Deus age e trata com a nossa condição humana. Ao contrário de vermos aqui uma caricatura de Deus, vemos o brilho maior da Sua essência. Em vez de vermos qualquer paralelismo com crenças primitivas, vemos a diferença abissal da maneira como Deus vê o nosso estado e o trata.

            De todas as expressões de Cristo na cruz salientamos aquela em que triunfalmente declara “Está consumado”. Nada mais precisamos de acrescentar. Não necessitamos de nenhum outro mediador, nem Salvador. Jesus é totalmente suficiente. Tudo ficou definitivamente concluído. Somos reconciliados com Deus através do que Jesus realizou a nosso favor. Qualquer tentativa de acrescentar seja o que for é uma ofensa.

            O inferno é no fundo tentar pagar o que já foi pago, tentar realizar o que já foi realizado, tentar conquistar o que já foi conquistado, tentar merecer o que não pode ser merecido.

            O que afasta definitivamente o homem de Deus não são os pecados, mas o pecado da recusa da sua generosa salvação graciosamente oferecida e apenas recebida pela fé.

            O escritor Max Lucado no seu livro “Nas Garras da Graça” exclama a sua admiração diante do Criador e Redentor nestes termos:

“Que deus!

            Considere o feito de Deus.

            Ele não fecha os olhos ao nosso pecado, nem compromete o seu critério.

            Ele não ignora nossa rebelião, nem afrouxa suas exigências.

            Em vez de descartar nosso pecado, Ele o assume e, inacreditavelmente, sentencia-se a si próprio.

            A santidade de Deus é honrada. Nosso pecado é punido e... nós somos redimidos.

            Deus faz o que não podemos fazer, e assim podemos ser o que nem ousamos sonhar: perfeitos diante de Deus.” (Nas Garras da Graça, Max Lucado, Vida, pp. 59)

 

 

A graça na vivência individual.

            Se a graça é uma realidade absoluta no relacionamento de Deus para com o homem precisamos aprofundar as suas implicações na nossa vivência em relação a nós mesmos, a forma como nos vemos e entendemos, a maneira como lidamos com as pessoas que nos envolvem.

            Na medida em que formos tomados pela graça divina, na medida em que tivermos disso consciência, na medida em que a experiência da graça for dominante, estaremos habilitados para assumirmos a graça como elemento estruturante da nossa existência.

            Alcançados pela graça, relacionados com Deus com base na graça, para podermos estender essa graça uns aos outros.

            Amor incondicional, aceitação, perdão e serviço são uma necessidade premente. Diante de uma sociedade em que o egoísmo, a competição e o consumismo são geradores de exclusão, marginalidade, violências, dependências várias, perturbações emocionais e doenças psíquicas, só a graça pode trazer cura e libertação.

            O texto do julgamento em que Jesus ressalta o tratamento que Lhe damos quando vestimos os nus, alimentamos os esfomeados, visitamos os doentes e os presos, conduz-nos a pautar a nossa vida pela mesma graça com que fomos agraciados, pelo mesmo perdão com que fomos perdoados, o mesmo amor com que fomos amados e o mesmo serviço com que fomos servidos. Deus tomou a iniciativa e uma vez tocados, transformados e nutridos pelo Seu amor, pela Sua graça, pelo Seu perdão e pelo Seu serviço, convoca-nos a todos a vivermos pessoal e individualmente desta maneira.

            Como será diferente a nossa sociedade se vivermos desta forma na nossa família, no nosso círculo de amigos e vizinhos, para com o próximo do qual nos aproximamos.

            Não podemos esquecer o que disse Dwight L. Moody : “De cem homens, um lerá a Bíblia; noventa e nove lerão o cristão”. (Maravilhosa Graça, Philip Yancey, Vida, pp. 275)

A parábola que Jesus contou conhecida como do “Bom Samaritano” encerra, de uma forma inexcedível para cada um dos tempos e dos espaços, a resposta a qualquer tentativa de segregação e xenofobia a partir da fé. O nosso próximo não é apenas aquele que fala a nossa língua, que veste as nossas marcas, que partilha a nossa cultura, que frequenta os nossos ambientes, mas aquele de quem nos aproximamos e o melhor modelo foi identificado por Cristo mais facilmente entre os proscritos samaritanos do que entre os religiosos judeus.

O autor evangélico Max Lucado, a que já nos reportámos, refere: “A chamada da graça é para viver uma vida graciosa.” (Nas Garras da Graça, Max Lucado, Vida, pp. 116)

 

 

A graça na dimensão política.

            Diante da dimensão política parece-nos que a dimensão da ética individual vai perdendo terreno. Consideramos que a graça chama-nos a revalorizar a pessoa humana, o indivíduo e o relacionamento.

            Mesmo assim a política constitui-se como um desafio a que temos de responder percebendo de que forma é que a graça pode ser introduzida e valorizada.

            De que forma é que a graça pode pontuar as relações sócio-económicas, o mercado de trabalho, a relação entre os Estados e as Nações.

            Uma das formas por onde começar seria eventualmente o perdão das dívidas dos países pobres aos países ricos como tantos têm proposto.

            Que diferença a graça pode fazer face às desigualdades sociais? De que modo a graça pode levar-nos a agir na distribuição da riqueza produzida? De que forma a graça pode influir nos orçamentos dos Estados de molde a que a solidariedade fale mais alto do que a corrida aos armamentos?

            Líamos recentemente na imprensa portuguesa sobre as desigualdades sociais marcantes, números que nos devem fazer não apenas reflectir mas principalmente agir. Passo a citar: No passado dia 17 – dia mundial para a erradicação da pobreza – a Associação Promotora dos Direitos Humanos insistiu numa classificação que nos envergonha: um em cada cinco portugueses – 20 por cento da população, dois milhões de pessoas – sobrevive abaixo do chamado ‘nível de pobreza’. Este nível é o mais elevado da União Europeia. Portugal é, no entanto, o país que menos gasta com a protecção social por habitante, pouco mais de metade da média da União. Além disso, nos últimos anos, verificamos que o fosso entre ricos e pobres aumentou assustadoramente. Já sabíamos, pelo Relatório de Desenvolvimento Humano 2004 das Nações Unidas, que as desigualdades sociais em Portugal atingem valores alarmantes. Os dez por cento dos portugueses mais pobres detêm dois por cento do rendimento nacional; os dez por cento mais ricos concentram 29 por cento desse rendimento.” (Pobres e Ricos, Frei Bento Domingues, Jornal Público, 24.10.2004).

            Será que somos um país realmente ou virtualmente cristão? A resposta é de cada um e de todos nós!

 

 

Graça multiplicada até que Jesus volte.

            Crescemos na medida em que somos inundados pela graça e a comunicamos a outros.

Dois mil anos já se passaram desde que o Verbo divino cheio de graça e verdade andou entre nós e nos mostrou o Pai, deixando-nos a promessa de que voltaria e que até lá reproduzíssemos o Seu exemplo e o Seu ensino.

            A esperança de que voltará é, também ela, uma das facetas da graça, que não nos permite capitular perante as arremetidas continuadas do egoísmo em cada um de nós. Acreditamos que novos céus e nova terra em que habitarão a justiça, só serão possíveis até que Ele volte e temos uma convicção profunda da sua iminência. Mas até que tal ocorra temos a incumbência de viver na graça, promovendo a justiça e a solidariedade entre os homens, numa convocação permanente ao arrependimento e à conversão a Jesus Cristo.

 

            Terminamos com duas citações de um autor evangélico contemporâneo dos que mais apreciamos – Philip Yancey, e com a declaração bíblica do Espírito Santo pela pena do Apóstolo Pedro.

            “Não posso moderar minha definição de graça porque a Bíblia me força a torná-la o mais abrangente possível. Deus é “o Deus de toda a graça”, nas palavras do apóstolo Pedro. E graça significa que não há nada que eu possa fazer para Deus me amar mais, e nada que eu possa fazer para Deus me amar menos. Significa que eu, até mesmo eu que mereço o contrário, sou convidado a tomar o meu lugar à mesa da família de Deus.” (Maravilhosa Graça, Philip Yancey, Vida, pp. 71).

            “Ideais absolutos e graça absoluta. (...) Em sua resposta ao jovem rico, na parábola do bom samaritano, em seus comentários sobre o divórcio, o dinheiro e qualquer outra questão moral, Jesus nunca rebaixou os ideais de Deus. “Sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste”, disse ele em Mateus 5:48. “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” (Mt 22:37). Nem Tolstoi, nem Francisco de Assis, nem Madre Teresa de Calcutá, nem ninguém cumpriu totalmente estes mandamentos.

            Mas o mesmo Jesus oferece, com ternura, a graça absoluta, talvez a mais notável característica distintiva da fé cristã. Deus nos ama não por aquilo que somos ou que fizemos, mas por aquilo que Deus é. A graça flui para todos aqueles que a aceitam. Jesus perdoou uma adúltera, um ladrão na cruz, um discípulo que o negou, mesmo conhecendo-o. A graça é absoluta e abrange todas as coisas. Ela se estende inclusive para as pessoas que pregaram Jesus na cruz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” está entre as últimas palavras que ele disse aqui na terra (Lc 23:34).” (Alma Sobreviviente; pp. 152; Editora Mundo Cristão)

            “Crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, tanto agora como no dia eterno.” (Segunda Epístola do Apóstolo Pedro 3:18).

 

            Confesso que sou um fanático da graça divina!...

            E a pergunta nevrálgica é: “Depois de aprender que Deus preferiu morrer a viver sem você, como você reage?” (Nas Garras da Graça, Max Lucado, Vida, pp. 166)

           

 

 

Bibliografia:

 

 

 

Samuel R. Pinheiro

www.samuelpinheiro.com

 

 


Anexo

Significado do conceito de “graça”

 

1. O USO BÍBLICO DA PALAVRA “GRAÇA”. Nem sempre a palavra “graça” é empregue no mesmo sentido da Escritura, mas apresenta certa variedade de significados. Temos no Velho Testamento a palavra chen (adj. chanun) da raiz chanan. O substantivo pode significar graciosidade (graça, neste sentido) ou beleza, Pv 22.11; 31.30, porém mais geralmente significa favor ou boa vontade. Achar favor aos olhos de Deus ou do homem é expressão que se encontra repetidamente no Velho Testamento. O favor assim obtido leva consigo a concessão de favores ou bênçãos. Quer dizer que a graça não é uma qualidade abstracta, mas é um princípio activo e dinâmico, que se manifesta em actos benevolentes, Gn6.8; 19.19; 33.15; Êx 33.12; 34.9; 1 Sm 1.18; 27.5; Et 2.7. A ideia fundamental é a de que as bênçãos graciosamente concedidas são dadas livremente (gratuitamente), e não em consideração a qualquer reivindicação ou mérito. A palavra neotestamentária charis, de chairein, “regozijar-se”, denota primeiramente uma aparência externa agradável – “encanto”, “agrado”, “aceitabilidade”, e é este o sentido em Lc 4.22; Cl 4.6. Contudo, num sentido mais proeminente é favor ou boa vontade, simpatia, Lc 1.30; 2.40, 52; At 2.47; 7.46; 24.27; 25.9. Pode significar a bondade ou benevolência de nosso Senhor, 2 Co 8.9, ou o favor demonstrado ou concedido por Deus, 2 Co 9.8 (que se refere a bênçãos materiais); 1 Pe 5.10. Acresce que a palavra expressa a emoção despertada no coração do favorecido e, assim, adquire o sentido de gratidão, Lc 4.22; 1 Co 10.30; 15.57; 2 Co 2.14; 8.16; 1 Tm 1.12. Contudo, na maioria das passagens em que a palavra charis é utilizada no Novo Testamento, ela significa a imerecida operação de Deus no coração do homem, operação efectuada mediante o Espírito Santo. Embora às vezes falemos da graça como uma qualidade inerente, é, na realidade a comunicação activa das bênçãos divinas pela acção interior do Espírito Santo, provenientes daquele que é “cheio de graça e de verdade”, Rm 3.24; 5.2, 15, 17, 20; 6.1; 8.9; Ef 1.7; 2.5, 8; 3.7; 1 Pe 3.7; 5.12.

 

2. A GRAÇA DE DEUS NA OBRA DE REDENÇÃO. A discussão da graça de Deus no contexto da obra de redenção requer igualmente diversas distinções, que devemos ter em mente.

 

a. Em primeiro lugar, a graça é um atributo de Deus, uma das perfeições divinas. É o livre, soberano e imerecido favor ou amor de Deus ao homem, no estado de pecado e culpa em que este se encontra, favor que se manifesta no perdão do pecado e no livramento da sua pena. A graça está relacionada com a misericórdia de Deus, em distinção da Sua justiça. Esta é a graça redentora no sentido mais fundamental da expressão. É a causa última do propósito activo de Deus, da justificação do pecado e da sua renovação espiritual; e é a prolífica fonte de todas as bênçãos espirituais e eternas.

 

b. Em segundo lugar, o termo “graça” é empregue como um designativo da provisão objectiva que Deus fez em Cristo para a salvação do homem. Cristo, como o Mediador, é a encarnação viva da graça de Deus. “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade”, Jo 1.14. Paulo tem em mente a manifestação de Cristo, quando diz: “Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens”, Tt 2.11. Mas o termo não é aplicado somente ao que Cristo é, mas também ao que Ele mereceu para os pecadores. Quando Paulo fala repetidamente, nas saudações finais das suas epístolas, da “graça de nosso Senhor Jesus Cristo”, ele tem em mente a graça da qual Cristo é a causa meritória. Diz João: “a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo”, Jo 1.17.

 

c. Em terceiro lugar, a palavra “graça” é empregue para designar o favor de Deus como é demonstrado na aplicação da obra de redenção pelo Espírito Santo. É aplicada ao perdão que recebemos na justificação, um perdão dado gratuitamente por Deus, Rm 3.24; 5.2, 21; Tt 3.15. Mas, em acréscimo a isso, também é um nome compreensivo, abrangendo todos os dons da graça de Deus, as bênçãos da salvação e as graças espirituais que são accionadas nos corações e vidas dos crentes pela operação do Espírito Santo, At 11.23; 18.27; Rm 5.17; 1 Co 15.10; 2 Co 9.14; Ef 4.7; Tg 4.5,6; 1 Pe 3.7. Além disso, há claras indicações de que não se trata apenas de uma qualidade passiva, mas também de uma força activa, uma energia, uma coisa que trabalha, 1 Co 15.10; 2 Co 12.9; 2 Tm 2.1. Neste sentido da palavra, ela é como um sinónimo do Espírito Santo, de maneira que há pouca diferença entre as expressões “cheio do Espírito Santo” e “cheio de graça e poder”, At 6.5 e 8. O Espírito Santo é chamado “Espírito da graça”, Hb 10.29. É especialmente com relação aos ensinamentos da Escritura a respeito da graça de Deus ao pecador pelo Espírito Santo, que a doutrina da graça se desenvolveu na igreja.

 

(BERKHOF, Louis; Teologia Sistemática; pp. 427-429)