RAÍZES
DA DIVERSIDADE RELIGIOSA
EM PORTUGAL
O
SER HUMANO É NA SUA ESSÊNCIA UM SER RELIGIOSO
qualquer
que seja a sua cultura, habitat geográfico, tempo histórico ou origem étnica.
Quando muitos vaticinavam o desaparecimento do religioso e da espiritualidade e
alguns, inclusivamente, se atreveram a decretar a morte de Deus, eis que
assistimos, hoje em dia, no terceiro milénio e no século XXI, a um
ressurgimento do fenómeno, que a todos esses apanhou de surpresa.
A
DIVERSIDADE RELIGIOSA
começa por ser resultado, no meu entender, da própria natureza e
condição humana. Os homens são por natureza e condição diversos entre si. A
sua diversidade é uma marca da humanidade. Todos diferentes – todos iguais!
Esta diversidade manifesta-se ao longo da História e em cada momento dessa
mesma História na relação do homem consigo mesmo, com os outros, com a
natureza e com o trabalho. É por isso que vamos encontrar, por exemplo,
manifestações e expressões religiosas ligadas à terra, ao campo, à
natureza, à produção, consoante o homem se dedica à agricultura, à pastorícia,
ao artesanato e à arte. Pessoalmente considero que o processo religioso
processa-se do monoteísmo para o politeísmo, da adoração de um único Deus
para a adopção de várias divindades, sendo que, neste último caso ainda é
possível, em meio a cada um deles, encontrar a referência a um deus supremo.
ESTA
DIVERSIDADE RELIGIOSA É CONTRARIADA
na
medida em que a religião passa a ser instrumento ou instrumentalizada pelo
poder de um grupo em relação aos restantes grupos, e passa a ser usada como
elemento de dominação à medida que a estrutura social tende a tornar-se
imperial, ou quando a religião deixa de ser entendida numa lógica de serviço
à comunidade e passa a ser entendida como factor de poder, controle, domínio e
manipulação do indivíduo e dos grupos; quando a religião deixa de ser vivida
de modo genuíno de dentro para fora e passa a ser vivida como meio de promoção
social, à medida em que a religião se torna e consubstancia num grupo social
que disputa um lugar de domínio na hierarquia da sociedade e do Estado, quando
o religioso passa a fazer parte da lógica das classes sociais ou quando pura e
simplesmente a religião reflecte essa mesma divisão de classes (religião
popular, institucional, magisterial, estatal, nacional e/ou universal), quando a
religião se torna religião do Estado ou quando é suportada e alimentada por
ele ou quando, finalmente, chega a ser, ela mesmo, um Estado.
OS
FLUXOS MIGRATÓRIOS
e
o contacto com outras culturas são um factor decisivo no incremento da
diversidade umas vezes de forma pacífica, outras de forma hostil e violenta.
Todos conhecemos os exemplos de que o domínio político é acompanhado umas
vezes pela imposição de um novo código religioso na medida em que os deuses
do povo vencedor são também eles tidos como vencedores dos povos vencidos,
outras vezes o povo que passa a exercer o domínio tolera os cultos dos povos
dominados desde que não seja colocada em causa o seu domínio e o que ele
representa em termos de vassalagem. Também conhecemos as situações em que a
religião acaba por ser um factor decisivo nas motivações de insurreição
contra os invasores e nos esforços para a recuperação da libertação do jugo
opressor.
QUANDO
O CRISTIANISMO SURGE há cerca de dois mil anos atrás, no primeiro século da era
cristã, aparece com uma afirmação muito simples mas profundamente provocadora
no seu contexto cultural, social, político, económico e religioso. A essência
da proclamação das igrejas cristãs, das comunidades locais desde Jerusalém
até aos confins da terra, consiste na apresentação de Jesus Cristo como Deus
connosco, único e suficiente Senhor e Salvador, como único Mediador entre Deus
e os homens, como a presença visível do Deus invisível, como Deus na História,
como Deus feito homem, como Deus que vem ao encontro do homem que morre e
ressuscita e promete regressar deixando uma ordem de divulgação acima de tudo
pela vivência do amor como identidade essencial de quem O segue, como Deus que
se apresenta perante todas as imaginações que os homens ao longo dos milénios
foram fazendo d’Ele, como o autêntico e o real que confronta as noções em
primeiro lugar e antes de todos, dos que a si mesmo se apresentavam e se
arrogavam representantes legítimos d’Ele e que de alguma forma se entretinham
em discussões mais ou menos estéreis, acerca não só da Sua identidade, como
também da Sua vontade e plano.
AQUILO
QUE PODE SER LIDO COMO UMA AFRONTA À DIVERSIDADE
quando
é atentamente analisado na existência, na essência, na vivência e na prática
do próprio Jesus Cristo, verifica-se que é precisamente o contrário, porque a
par com a afirmação inequívoca e frontal sintetizada na reivindicação EU
SOU... bem conhecida na cultura judaica de então, é assumida como respeito
absoluto e inquestionável das convicções religiosas do outro, e nunca por
nunca ser a força e a violência poderão ser legitimamente usadas para
aniquilar, silenciar ou intimidar os que pensam de uma forma diferente. O próprio
exemplo de vida de Jesus Cristo, quando entendido como Deus encarnado, contraria
essa postura, na medida em que é o próprio Deus feito homem que se deixa
crucificar e matar na cruz em lugar e como substituto de todos os seus algozes e
de toda a humanidade, e não o Deus feito homem que lança mão do Seu poder e
autoridade para esmagar porventura os seus opositores. A cruz torna-se assim no
escrever do apóstolo
A
CONSTANTINIZAÇÃO DO CRISTIANISMO
ou a
transposição da fé cristã para a lógica do Estado e do poder como braço
espiritual do poder temporal, como religião do Estado e ao serviço deste e/ou
servindo-se dele inverte de modo progressivo a matriz da fé cristã. Em vez de
igrejas e comunidades locais passa-se a falar da Igreja e de perseguida e
maltratada, passa ao papel de perseguidora.
A
HISTÓRIA REPETE-SE UM POUCO POR TODA A PARTE e Portugal não é excepção. Segundo a minha
leitura creio que esta é a realidade que desde o seu berço Portugal também
viveu em cada um dos seus momentos. O berço da nacionalidade conhece por excelência
a Igreja dominadora mas também a Igreja que nas suas bases populares acaba por
absorver as práticas ancestrais da religiosidade popular. Não se trata apenas
de inculturação ou da substituição dos elementos estruturantes das práticas
religiosas tradicionais, mas da inclusão sincretista desses elementos na vivência
religiosa.
PORTUGAL
NÃO TEVE A SUA REFORMA PROTESTANTE
embora tenha sentido alguns impactos que foram
mais ou menos absorvidos e silenciados, acabando por não ter maior eco e
repercussão em termos sociológicos, políticos, económicos e culturais.
Referimos os casos em que surgem alguns sinais da influência reformadora em
figuras de vulto como Gil Vicente (c. de 1465-1536?), Luís de Camões
(1525?-10/7/1580), Damião de Góis (1502-1574), Almeida Garrett (Porto, 1799
– Lisboa, 1854), Alexandre Herculano (Lisboa, 1810 – Vale de Lobos, Azoia,
Santarém, 1877). Existem hoje em dia referências à pessoa de João Ferreira
de Almeida (1628-1691)3 como
o reformador português pelo seu contributo decisivo para a tradução da Bíblia
em português e, se efectivamente existe um factor marcante por excelência do
espírito reformador, ele consiste precisamente no verter da Bíblia para o vernáculo,
colocando-a ao alcance do povo com tudo o que isso representou de
desenvolvimento do pensamento, da reflexão, da instrução e da literacia.
Abre-se assim a possibilidade da livre interpretação do texto bíblico e do
debate doutrinário proveniente das páginas do texto sagrado e da tradição,
acompanhado pela defesa intransigente de uma interpretação do texto pelo próprio
texto tendo em consideração o contexto histórico, mas sem resvalar para uma
prática cada vez mais próxima da tendência pós-moderna de o leitor e a sua
cultura se transformar na autoridade sobre o texto, ou deste ser sujeito à
matriz cultural do leitor. Assiste-se, hoje em dia, a um debate intenso sobre a
inerrância do texto sagrado e da sua inspiração no contexto das culturas em
que cada um dos seus livros foi escrito.
AS
IGREJAS PROTESTANTES E EVANGÉLICAS surgem em Portugal pela via da presença entre nós de
personalidades estrangeiras que trazem consigo as suas convicções e práticas
religiosas. Referimos apenas os nomes de
Com a revolução de 25 de Abril de 1974, muito
lentamente, vai-se tomando consciência da necessidade de reconhecer às
minorias religiosas os direitos que lhes assistem numa sociedade democrática e
livre, embora seja minha convicção que ainda estejamos longe de uma efectiva
igualdade de oportunidades. Não nos esqueçamos que a Lei da Liberdade
Religiosa é aprovada em Portugal apenas no ano de 2001 e a sua regulamentação
ainda aguarda por algumas decisões que continuam a tardar.
A
VISIBIBILIDADE DAS CONFISSÕES RELIGIOSAS NA SUA DIVERSIDADE tem sido, no meu entender, o contributo mais recente da história
portuguesa de um modo muitas vezes tímido e lento, acompanhado pelo acenar dos
fantasmas da primeira República, mas que tem pelo menos três componentes que são,
segundo a minha opinião, um exemplo e modelo tanto para a Europa como para
outros contextos culturais e civilizacionais: o serviço público de televisão,
as disciplinas de Educação Moral e Religiosa nas escolas públicas e a Lei da
Liberdade Religiosa, a que espero se venham a juntar outras iniciativas como é
o caso das capelanias hospitalares, prisionais e das forças armadas; o
reconhecimento de licenciaturas, mestrados e doutoramentos em teologia pelos
Institutos e Seminários das outras confissões; a efectiva inclusão nos planos
directores municipais de espaços destinados ao culto das confissões religiosas
com expressão, embora minoritárias.
www.samuelpinheiro.com
Comunicação apresentada no Colóquio “Religiões,
Diversidade e Não-Discriminação” organizado pela Estrutura de Missão do
Ano Europeu da Igualdade de Oportunidades para Todos – por uma Sociedade
Justa – 2007, da Presidência de Ministros – Ministério do Trabalho e
Solidariedade Social, a 19 de Outubro p.p. na Fundação Mário Soares.