OS IMPÉRIOS HUMANOS E O REINO DE DEUS

 

            É interessante notar que as páginas da Bíblia são atravessadas pelos grandes impérios que marcaram a História da humanidade. Desde o Império Babilónico, Medo-Persa, Grego ao Romano que assistiu ao nascimento de Jesus Cristo, as Escrituras Sagradas contemplam alusões mais ou menos extensas a cada um deles.

            O livro de Daniel, como um dos profetas maiores do Velho Testamento, apresenta-nos, através do sonho do imperador Nabucodonosor, um vislumbre destes impérios representados simbolicamente numa estátua.

            É nesta visão interpretada pelo destacado membro da corte babilónica, deportado de Jerusalém aquando da sua invasão, que os exegetas bíblicos encontram uma descrição dos poderes políticos, económicos, culturais e religiosos que terminarão pela intervenção poderosa de Deus e do Seu reino, representados na figura de uma pedra “cortada sem auxílio de mãos, e ela esmiuçou o ferro, o bronze, o barro, a prata e o ouro” (Dn 2:45).

            O último destes impérios, que antecede a intervenção final de Deus e a implantação universal do Seu reino, é associado por uma parte substancial dos estudiosos bíblicos à actual União Europeia, apresentada como o ressurgimento do antigo império romano. A sua fragilidade e instabililidade é hoje em dia uma característica evidente entre os analistas políticos, académicos e seculares, muitos deles absolutamente distanciados e até desconhecedores destas interpretações do texto bíblico.

            É nestes termos que nos é apresentada a intervenção divina: “Mas, nos dias destes reis, o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído; este reino não passará a outro povo: esmiuçará e consumirá todos estes reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre” (Dn 2:44).

 

            Os impérios humanos acabam por ter sempre as mesmas marcas da arrogância e do orgulho, da prepotência e da injustiça, da ocupação e da segregação. No caso de Nabucodonosor o mesmo livro de Daniel acaba por fazer menção da loucura que o acometeu durante um determinado período, em virtude de não se haver arrependido depois do aviso que Deus lhe deu por meio de um sonho interpretado por Daniel.

            Atentemos na maneira como é declarada no texto das Sagradas Escrituras: “serás expulso de entre os homens, e a tua morada será com os animais do campo, e dar-te-ão a comer ervas como aos bois, e serás molhado do orvalho do céu; e passar-se-ão sete tempos por cima de ti, até que conheças que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens, e o dá a quem quer. (...) Portanto, ó rei, aceita o meu conselho, e põe termo em teus pecados pela justiça, e às tuas iniquidades usando de misericórdia para com os pobres; e talvez se prolongue a tua tranquilidade.” (Dn 4:25,27).

            É importante reparar na referência objectiva que é feita ao modo como os pobres são (mal)tratados.

 

            Outro importante aspecto salientado é o da soberania de Deus. O facto de os impérios e os imperadores emergirem não ofusca nem diminuiu o Todo-Poderoso. A verdade é que a malignidade dos grandes imperadores ou de qualquer outro ser humano e do sistema regional ou global, só se manifesta na medida em que o Criador o permite. A revelação não encobre a “responsabilidade” divina que é sempre segundo a Sua santidade, justiça, misericórdia, bondade e amor, nem a responsabilidade do homem de acordo coma  sua liberdade, conhecimento e consciência.

            No livro que temos citado há uma expressão colhida dos lábios do imperador babilónico depois da sua experiência de loucura referida anteriormente, a qual é bem significativa: “Mas ao fim daqueles dias eu, Nabucodonosor, levantei os olhos ao céu, tornou-me a vir o entendimento e eu bendisse o Altíssimo, e louvei e glorifiquei ao que vive para sempre, cujo domínio é sempiterno, e cujo reino é de geração em geração. Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes? (...) Agora, pois, eu, Nabucodonosor, louvo, exalto e glorifico ao Rei do céu; porque todas as suas obras são verdadeiras, e os seus caminhos justos, e pode humilhar aos que andam na soberba.” (Dn 4:34,35,37).

           

            Dentro desta soberania é também claro, no texto bíblico, que alguns destes imperadores acabam no seu exercício consentido por Deus, acatar e cumprir a Sua vontade. É o caso de Ciro, imperador persa, que determinou o retorno do povo de Israel à sua terra, bem como a reconstrução dos seu muros e templo. Assim se exprime o profeta Isaías: “Assim diz o Senhor ao seu ungido, a Ciro, a quem tomo pela mão direita, para abater as nações ante a sua face; e descingir os lombos dos reis, para abrir diante dele as portas, que não se fecharão.” (Is 45:1).

            O profeta Jeremias declara isso mesmo sobre Nabucodonosor que pôs em cativeiro o reino do Sul: “Eu fiz a terra, o homem e os animais que estão sobre a face da terra, com o meu grande poder e com o meu braço estendido, e a dou àquele a quem for justo. Agora eu entregarei todas estas terras ao poder de Nabucodonosor, rei de Babilónia, meu servo; e também lhe dei os animais do campo para que o sirvam. Todas as nações o servirão a ele, a seu filho e ao filho de seu filho, até que também chegue a vez da sua própria terra, quando muitas nações e grandes reis o farão seu escravo. Se alguma nação e reino não servirem o mesmo Nabucodonosor, rei de Babilónia, e não puseram o pescoço debaixo do jugo do rei de Babilónia, a essa nação castigarei com espada, e com fome e com peste, diz o Senhor, até que eu a consuma pela sua mão.” (Jr 27:5-8).

 

            Isto não quer dizer que Deus sancione a injustiça, a violência, a prepotência, a crueldade, a ganância, o orgulho e a cobiça. Em muitas outras ocasiões o Senhor levanta a Sua voz na Terra contra todos os que assim procedem. O exemplo mais saliente é aquele que serve de tipo para a rebelião do próprio Lúcifer, quando se refere ao rei de Tiro: “Filho do homem, levanta lamentações contra o rei de Tiro, e dize-lhe: Assim diz o Senhor Deus: Tu és o sinete da perfeição, cheio de sabedoria e formosura. Estavas no Éden, jardim de Deus; de todas as pedras preciosas te cobrias: o sárdio, o topázio, o diamante, o berilo, o ónix, o jaspe, a safira, o carbúnculo e a esmeralda; de ouro, se fizeram os engastes e os ornamentos; no dia em que foste criado foram eles preparados. Tu eras querubim da guarda ungido, e te estabeleci; permanecias no monte santo de Deus, no brilho das pedras andavas. Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que se achou iniquidade em ti. Na multiplicação do teu comércio se encheu o teu interior de violência, e pecaste; pelo que te lançarei profanado fora do monte de Deus, e te farei perecer, ó querubim da guarda, em meio ao brilho das pedras. Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria, por causa do teu resplendor; lancei-te por terra, diante dos reis para que te contemplem. Pela multidão das tuas iniqudades, pela injustiça do teu comércio profanaste os teus santuários; eu, pois, fiz sair do meio de ti um fogo, que te consumiu, e te reduziu a cinzas sobre a terra, aos olhos de todos os que te contemplam. Todos os que te conhecem entre os povos estão espantados de ti; vens a ser objecto de espanto, e jamais subsistirás.” (Ez 28:12-19).

 

            O reino de Deus é totalmente diferente.

            Quando Jesus entrou fisicamente, assumindo um corpo e dimensão humana, no cenário terreno, muitos eram os que tinham da promessa messiânica uma perspectiva política. Não direi expansionista ou imperialista, mas uma ambição de liberdade e independência.

            Mesmo antes de voltar ao Pai, antes de ser arrebatado, os discípulos colocaram-Lhe a questão que perpassava pelas suas almas e mentes: “Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?” (At 1:6).

            A estas inquietações e aspirações Jesus retorquiu: “Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou para sua exclusiva autoridade; mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judeia e Samaria, e até aos confins da terra.” (At 1:7,8).

            Daqui decorre com uma limpidez total que o projecto de Cristo para os Seus discípulos não é político. Não que os Seus seguidores não exerçam individual e pessoalmente as suas responsabilidades de cidadãos, e não possam atender a responsabilidades de cidadania política, quando a tanto forem solicitados ou as oportunidades e vocação venham a surgir.

            A missão por excelência dos cristãos e da Igreja é divulgar, proclamar, anunciar, partilhar as boas novas da salvação e da reconciliação com Deus, tendo em vista uma nova realidade global, num futuro determinado pelo Senhor da História.

            Torna-se também claro que não é possível aplicar as situações específicas respeitantes ao povo de Israel como nação política e economicamente estabelecida, para o corpo dos seguidores de Jesus.

            A História demonstrou já de sobejo que a aliança e conivência entre o espiritual e o temporal deram maus resultados. Mas não caiamos no logro que o laicismo pode acabar por produzir. É nossa opinião não ser possível nem desejável excluir a fé e o espiritual (no que representa de relacionamento e intimidade com Deus) em qualquer área da nossa vida.

            Discordamos totalmente da opinião que a nossa vida é feita de várias dimensões nas quais se conta o espiritual, o profissional, o familiar, o eclesial, o cultural, o lazer, etc. É nossa convicção que a dimensão espiritual está presente em toda e qualquer área da nossa actuação.

 

            Terminamos com o que diz o apóstolo Paulo quando escreve aos crentes em Roma: “o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo.” (Rm 14:17).

 

Samuel R. Pinheiro