INTELIGÊNCIA ESPIRITUAL

Coeficiente Positivo de Inteligência Espiritual

 

 

EXISTÊNCIA E CONDIÇÃO HUMANA

EXPERIÊNCIA CRISTÃ

NATUREZA E EVIDÊNCIAS DA FÉ

ESCÂNDALO E LOUCURA DO CRISTIANISMO

 

            A fé cristã é inteligente e a inteligência humana tem uma dimensão espiritual que precisa ser vivificada por Jesus Cristo, orientada e alimentada pela Revelação bíblica. Como cristãos temos uma vocação, um desafio e um propósito: “possuir a mente de Cristo” para as gerações do século XXI.

Pois, quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir? Nós, porém, temos a mente de Cristo. (1 Co 2:16)

 

POR UMA FÉ INTELIGENTE

            Durante toda a minha vida, desde a adolescência, tenho travado uma luta renhida comigo mesmo por encontrar e desenvolver uma estrutura e compreensão racional/inteligente da fé e por tentar encontrar ou descobrir uma linguagem atractiva, mais do que simples e fácil confesso, para a expressar.

 

            Cada vez mais estou convencido da racionalidade, da lógica, da razoabilidade e da inteligência da fé cristã.

            Mas também cada vez mais me convenço de que toda esta racionalidade, lógica, razoabilidade e inteligência não pode ser aprisonada nos limites estreitíssimos da nossa capacidade mental (ela passa, necessariamente, pelo coração e pelos afectos, pela dimensão do espírito, pelos factos objectivos e pela experiência subjectiva), e prolonga-se ainda pelo muito mais que não conseguimos devassar com todos os nossos sentidos e percepções. Racional sim mas não racionalista. “A razão tem razões que a razão desconhece” como disse Pascal.

            A fé extravasa em muito os nossos horizontes mais vastos. O facto, segundo alguns cientistas, de possuirmos uma capacidade mental muito maior do que a que acabamos por utilizar, deixa muito que pensar.

Bebi com avidez as obras de autores cristãos como John Stott (“Crer é Também Pensar”, “Contracultura Cristã”, “A Cruz de Cristo”, “Cristianismo Básico” e “Ouça o Espírito, Ouça o Mundo”), Josh MacDowell (“Evidência que Exige um Veredicto”, “Ele Andou Entre Nós”, “Evidências da Ressurreição de Cristo”, “Certo ou Errado”, “Assassinos da Verdade” e “Cépticos que Exigem um Veredicto”), Paul Little (“Saiba Porque Crê” e “Saiba no que Crê”), Ravi Zacharias (“Pode um Homem Viver Sem Deus?” e “Do Coração de Deus”), Philip Yancey (“Deus Sabe que Sofremos”, “Decepcionado com Deus”, “O Jesus que Eu Nunca Conheci”, “Maravilhosa Graça”, “O Deus (in)Visível”, “A Bíblia que Jesus Lia”, “Igreja Porque me Importar” e “Encontrando Deus nos Lugares Mais Inesperados”), Erwin Lutzer (“Cristo Entre Outros Deuses”, “A Serpente do Jardim”, “7 Razões para Confiar na Bíblia” e “10 Mentiras sobre Deus”), Lee Strobel (“Em Defesa de Cristo” e “Em Defesa da Fé”), C. S. Lewis (“Cristianismo Autêntico”, “O Problema do Sofrimento” e “A Dor”), Charles Colson (“E Agora Como Viveremos?), Francis Schaeffer (“O Deus que Intervém”, “Verdadeira Espiritualidade” e “A Morte da Razão”), James Houston (“A Fome da Alma”, “Em Busca da Felicidade”, “Orar com Deus”  e “Mentoria Espiritual”), “Augusto Jorge Cury (“A Inteligência de Cristo”, “O Mestre da Sensibilidade”, “O Mestre da Vida”, “O Mestre do Amor” e “O Mestre Inesquecível”) – entre muitos outros que aqui poderia enumerar.

            De todos os livros que li nenhum suplanta o Livro dos livros – a Bíblia Sagrada, biblioteca divina da revelação sem a qual nenhuma das obras referidas anteriormente existiria e para a qual todas elas incidem e continuamente salientam e reforçam.

Não deixei de ler autores agnósticos e ateus como Bertrand Russel (“Porque Não Sou Cristão”), Friedrich Nietzsche (“Assim Falava Zaratrusta” e “Anticristo”), Jean Paul Sartre (“A Náusea”, “Pena Suspensa” e “As Palavras”), Vergílio Ferreira (“Aparição” e “Manhã Submersa”).

            Estou cada vez mais convicto que a razão pela qual um número muito significativo de pessoas ignora pura e simplesmente a fé cristã, ou procura outras alternativas no vasto mercado religioso da actualidade, ou se posiciona de modo mais ou menos acérrimo contra ela, não tem que ver com a razão mas com o seu coração.

 

            Apesar de tudo estou persuadido da necessidade de enquanto cristãos cultivarmos, individualmente e em conjunto, uma apresentação pertinente e relevante da fé cristã.

            Também aqui cada vez mais estou certo que as razões mais contundentes passam e radicam na qualidade de vida. O que somos, o que fazemos e principalmente o modo como o fazemos, fala mais alto do que o que dizemos.

            Ainda assim admito que alguns cristãos podem “aparentar” menos qualidade de vida segundo os padrões vigentes culturalmente, tanto física quanto emocionalmente, e ainda assim estarem muito acima dessa pretensa “qualidade” socialmente estabelecida. Tudo tem que ver com a bitola utilizada como padrão e se a avaliação é feita em termos meramente temporais ou eternos.

            A privatização da vida individual, sobretudo no que toca à espiritualidade, tolhe o diálogo e o confronto de sensibilidades. Por isso hoje parece cada vez mais difícil partilhar o que cremos, numa cultura do politicamente correcto, em que cada um se encerra dentro da sua própria “concha”. Tendemos a perder progressivamente a “persuasão gentil” não tomando a iniciativa para confrontarmos os nossos amigos, colegas, familiares e vizinhos acerca da existência e condição humana da perspectiva de Deus de acordo com a revelação bíblica.

O homem moderno e pós-moderno detesta ouvir falar de pecado, inferno, justiça divina, condenação, arrependimento, conversão, redenção, expiação, remissão, justificação, enfim, não quer ouvir falar acerca da cruz porque, à semelhança dos judeus e romanos do tempo de Paulo, isso parece-lhe escândalo e loucura. Afinal de contas o homem e a sua cultura espiritual não mudaram assim tanto. Continuamos na mesma. Pela parte que nos toca e que nos diz respeito, falta-nos a fibra espiritual dos cristãos do primeiro século. “Certamente a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus. Pois está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e aniquilarei a inteligência dos entendidos. Onde está o sábio? Onde o escriba? Onde o inquiridor deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria do mundo? Visto como na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar aos que crêem, pela loucura da pregação. Porque tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios; mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.” (1 Co 1:18-25).

 

            Creio, segundo a Bíblia, que a fé cristã depende da revelação e como tal é uma dádiva. “E assim, a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo.” (Rm 10:17). Assim sendo ela está disponível sem qualquer acepção. Apenas custa reconhecer que não é inata quando se refere à dimensão espiritual, porque nas restantes vertentes da vida ninguém pode viver sem ela.

            Estou igualmente convicto, segundo a mesma revelação, que a fé cristã antes de ser um acreditar em algo ou numa ideia ou valor, é um acreditar, confiar, depender e obedecer a Alguém.

            A fé cristã é fé na pessoa de Jesus Cristo. “Olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus.” (Hb 12:2).

 

            Estou ainda certo, segundo as Escrituras, que a fé cristã não é algo de privado ou um segmento isolado da vida de uma pessoa.

            O espiritual e a fé cristã permeiam toda a vida do homem: emoções, sentimentos, razão, vontade, pensamento, corpo, profissão, família, lazer, relações sociais, cultura, arte, etc.

            Já algumas vezes tenho dito, e não me escuso de repeti-lo, que estaria disposto a renunciar a Jesus Cristo se, porventura, outro maior houvesse ou surgisse. Mas sei que estou a falar de uma impossibilidade porque as afirmações que de Si mesmo fez e a Sua ressurreição são insuperáveis. Poderia ou poderá aparecer outro que lhe queira ser igual mas nunca superior. Dois mil anos passados nenhum outro sequer se aproximou da Sua estatura. Esta afirmação incorre num certo risco porque pessoalmente e à luz da mesma revelação creio que nos aproximamos, cada vez mais, de um tempo em que surgirá uma personagem que se insinuará “acima” do próprio Jesus Cristo e, atrás de si, atrairá todos os que recusaram o autêntico e verdadeiro Senhor. Só que a sua mentira será exposta e a sua pretensão fracassará rotundamente. A mentalidade que suporta esta “aparição” já se encontra estabelecida globalmente em termos do homem como medida de todas as coisas. “Irmãos, no que diz respeito à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e à nossa reunião com ele, nós vos exortamos a que não vos demovais da vossa mente, com facilidade, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, como se procedesse de nós, supondo tenha chegado o dia do Senhor. Ninguém de nenhum modo vos engane, porque isto não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia, e seja revelado o homem da iniquidade, o filho da perdição, o qual se põe e levanta contra tudo o que se chama Deus, ou objecto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o próprio Deus. Não vos recordais de que, ainda convosco, eu costumava dizer-vos estas coisas? E, agora, sabeis o que o detém, para que ele seja revelado somente em ocasião própria. Com efeito o mistério da iniquidade já opera e aguarda somente que seja afastado aquele que agora o detém; então será de facto revelado o iníquo, a quem o Senhor Jesus matará com o sopro da sua boca, e o destruirá, pela manifestação da sua vinda. Ora, o aparecimento do iníquo é segundo a eficácia de Satanás, com todo poder, e sinais e prodígios da mentira, e com todo engano de injustiça aos que perecem, porque não acolheram o amor da verdade para serem salvos. É por este motivo, pois, que Deus lhes manda a operação do erro, para darem crédito à mentira, a fim de serem julgados todos quantos não deram crédito à verdade; antes, pelo contrário, deleitaram-se com a injustiça.” (2 Ts 2:1-12).

            Considero-me uma pessoa exigente e no plano da existência e da essência quero a máxima exigência. Penso que todos deveríamos adoptar a postura de Sir Winston Churchill: “não sou um homem exigente; eu me contento com o melhor”. Poderia dizer que só Jesus satisfaz essa minha exigência, mas a verdade é que Jesus ultrapassou e a cada dia continua a ultrapassar em mim todos os recordes de exigência. Foi Ele que me ensinou essa exigência de excelência que convive saudavelmente com a minha fragilidade, fraqueza, debilidade e vulnerabilidade. A excelência é d’Ele e não me esmaga. Ele dá-me um valor que nenhum outro me poderia alguma vez dar. Ele dá ao ser humano a dignidade de filho do Altíssimo, acima da estatura de “criatura” do Altíssimo. A Sua própria excelência revelou-se na “vulnerabilidade” da cruz e conjuga-se com aceitação incondicional, amor, perdão e serviço.

            Cabe aqui fazer referência ao psiquiatra brasileiro Augusto Jorge Cury, autor de uma teoria relativa ao funcionamento do cérebro denominada “Inteligência Multifocal” e de uma colecção de obras sobre a “Inteligência de Cristo”. Como ateu começou por estudar o assunto apenas com interesse científico e acabou por defender a tese da historicidade de Jesus bem como da Sua divindade, considerando que o homem por si mesmo não teria sequer capacidade para inventá-lO. Passo a citar:

“No passado, Cristo era para mim fruto da cultura e da religiosidade humana. Porém, após anos de investigação, convenci-me de que não estou a estudar a inteligência de uma pessoa fictícia, imaginária, mas de alguém real, que andou e respirou nesta terra. É possível rejeitá-lo; todavia, se investigarmos as suas biografias não há como negar a sua existência e reconhecer a sua perturbadora personalidade. A personalidade de Cristo é ‘inconstrutível’ pela imaginação humana.” 

(A Inteligência Espiritual, p. 49).

 

            O jornalista e escritor evangélico Philip Yancey refere:

“Mais de 1900 anos depois”, disse H. G. Wells, “um historiador como eu, que nem mesmo se intitula cristão, descobre o quadro centralizando-se irresistivelmente ao redor da vida e do carácter desse homem muito significativo [...] O teste do historiador para a grandeza de um indivíduo é ‘O que ele fez crescer’. Ele levou os homens a pensar por linhas novas com um vigor que persistiu depois dele? Por esse teste Jesus está em primeiro lugar”. Você pode avaliar o tamanho de um navio que desapareceu de vista pela grande onda que deixa para trás.

(O Jesus que eu Nunca Conheci; Philip Yancey, Vida, p. 15)

           

            Um pouco adiante acrescenta:

J. B. Phillips escreveu, depois de traduzir e parafrasear os evangelhos: “Tenho lido, em grego e em latim, dezenas de mitos, mas não encontrei o mais ténue sabor de mito aqui [...] Nenhum homem teria conseguido escrever narrativas tão simples e tão vulneráveis como essas a não ser que um Evento real estivesse por trás delas”.

(O Jesus que eu Nunca Conheci; Philip Yancey, Vida, p. 19)

 

            Cada vez mais estou convencido que ninguém alguma vez pode dizer mais ou melhor acerca de Cristo, do que Cristo mesmo disse. O centro dos evangelhos não é, antes de tudo o mais, a Sua vida e acções, mas a Sua identidade, quem Ele é. As declarações que fez sobre Si mesmo atravessaram os séculos e os milénios, não foram superadas pelo desenvolvimento científico e tecnológico do último século, e alimentaram por seu turno o sonho da humanidade e foram inspiração para muitos artistas nos vários domínios da pintura à escultura, da arquitectura à música, da literatura ao cinema. O apóstolo João no último evangelho que tem o seu nome refere na parte final: “Na verdade fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registados para que creiais que Jesus é o Cristo o Filho de Deus, e para que, crendo tenhais vida em seu nome.” (João 20:30,31).

 

            Relativamente à linguagem continuo a partilhar a convicção que temos, como cristãos seguidores de Jesus, de fazer um esforço de actualização da linguagem e procurar uma apresentação sugestiva e atractiva. Mas essa linguagem não pode descurar a referência à bibliografia da fé que é a biblioteca divina – a Bíblia Sagrada. Infelizmente tendem a existir algumas obras que pretendendo apresentar a fé cristã, pouco ligam à sua fonte, estão por isso fadadas ao insucesso. Devemos também acautelar-nos em relação a elas porque nos enganaremos. Como é possível falar de sentido e propósito na vida cristã sem os centralizar na identidade de Jesus Cristo, na Sua encarnação, morte, ressurreição e na esperança eterna que para nós inaugurou? Qualquer obra sobre a condição humana e sobre o evangelho de Cristo que ignore a Sua morte vicária e substitutiva, não presta. Mais do que inútil é prejudicial, porque encobre e descura o essencial. Sem a cruz não há reconciliação possível com Deus e não há qualquer perspectiva presente ou futura.

            Mesmo assim também cada vez mais me convenço que ao movimento de Deus para o homem ao nível da linguagem humana, torna-se igualmente necessário que o homem ascenda até à linguagem que trata da realidade espiritual e divina. O orgulho humano tem de ser confrontado com a revelação divina. Mal vai ao aluno da universidade que confunde o seu assento com a cátedra do professor, e em vez de se esforçar para entender o mestre, quer obrigá-lo a conformar-se com a sua ignorância. Ou, pior do que isso, quer impor a sua incompetência ao professor, ou negar a capacidade e formação do pedagogo com a sua incapacidade. Diante de Deus temos que assumir a nossa completa insuficiência e incapacidade. Dependemos em absoluto da revelação e da acção iluminadora do Espírito Santo. Sem elas ficaremos a zero.

            Conceitos da revelação como pecado, graça, redenção, justificação, remissão, propiciação e santidade, entre outros, precisam ser reconsiderados, investigados, dissecados, analisados e aprofundados. Lamentavelmente o homem procura desenvolver-se no conhecimento das chamadas ciências humanas e desconsidera a sua formação e desenvolvimento nas ciências divinas da revelação. Tem uma informação mínima, razoável ou muito boa nos domínios da tecnologia, da psicologia, da sociologia, da antropologia, das artes, da política, da economia, da história e da literatura entre outras, mas é um ignorante acerca do que Deus fala. O Dr. Jorge Cury que já citamos tem a ousadia de afirmar peremptoriamente:

“A omissão e a timidez da ciência fizeram com que Cristo fosse banido das discussões académicas, não sendo estudado ou investigado nas salas de aulas. A sua complexa inteligência não é objecto de pesquisa nas teses de pós-graduação das universidades. Embora a inteligência de Cristo possua princípios intelectuais sofisticados, capazes de estimular o processo de interiorização e o desenvolvimento das funções mais importantes da inteligência, Ele realmente foi banido dos círculos escolares. É muito raro alguém comentar que a inteligência de Cristo era perturbadora, que Ele acabara com o cárcere intelectual das pessoas, que abria as janelas das suas mentes. Ele foi, sem dúvida, um exemplo vivo de mansidão e humildade, no entanto ninguém comenta que era insuperável na arte de pensar”.

(A Inteligência Espiritual, p. 31).

 

            Considero pessoalmente urgente que nos debrucemos atentamente e em diálogo construtivo com a Palavra de Deus, sobre a partilha da fé cristã.

O Deus que fala na história do homem não muda – é imutável. A contextualização da revelação divina não a pode empobrecer ou diminuir, invalidar, ou distorcer.

            A fé não é apenas o que funciona (pragmatismo) e, no entanto, funciona.

            A fé não é um artefacto mágico para satisfação dos nossos caprichos, ambições e projectos pessoais e, no entanto, dirige-se às nossas mais profundas necessidades existenciais e serve-nos as abundantes provisões divinas.

            A fé não pode ser medida e validada pelo número de pessoas que movimenta, para lá dos factos históricos e da solidez doutrinária que a consubstancia, e no entanto a fé cristã ao longo dos séculos tem acalentado milhões em todas as culturas, raças e línguas.

            A fé não é prisioneira dos limites da razão humana e, no entanto, ilumina-a de forma a que o homem se conheça e conheça o que o envolve.

 

 

PARADIGMAS DA FÉ CRISTÃ

Deus criou...

            O homem segundo a fé cristã é criação divina – Sua imagem conforme a Sua semelhança, mordomo da Terra, ser social que se realiza na relação com Deus e com o próximo, pessoa (espírito, alma e corpo).

            De modo nenhum fruto do acaso, acidente, absurdo, sem desígnio ou propósito, sem essência, abandonado, sozinho, entregue a si mesmo, fatalmente dependente do destino, da força dos astros, de poderes cósmicos impessoais e da conspiração dos genes.

            Considero que aqui temos a origem e o ponto fulcral de uma educação e formação plena e saudável da pessoa, sem a qual o ser humano estará sempre diminuído. Uma sociedade e uma geração ignorante, alienada da sua verdadeira estirpe e condição espiritual, está condenada.

            Não haveria outra forma mais majestosa para abrir o texto bíblico do que aquela que o escritor dos princípios usou: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1:1).

            O como científico da criação não entra no escopo da revelação – é tarefa da ciência, e não pensemos que os modelos e paradigmas são tão definitivos e monolíticos quanto algumas vezes nos querem fazer crer.

            Dou a palavra a Ed René Kivitz:

Dallas Willard, em seu imperdível livro A conspiração divina, disse que vivemos num “mundo imbuído de Deus (imbuído, particípio de imbuir, que se imbuiu; mergulhado, embebido; penetrado, impregnado), onde cada elemento está dentro da alçada do conhecimento e do controle directo de Deus. O que Deus deseja para nós é que vivamos nele. Ele coloca no meio de nós o caminho que leva até ele. Isso mostra como Deus realmente é bem no seu âmago – na verdade mostra como é realmente a realidade. Na sua natureza e no seu significado mais profundos, o nosso universo é uma comunidade de amor ilimitado e absolutamente capaz”. Eis aí a distinção entre o cristianismo e as tradições orientais, como o budismo, o hinduísmo e o taoísmo. O cristianismo afirma que a essência última do Universo é mais do que força, energia e luz. O cristianismo afirma que a essência última do Universo é uma pessoa. Ou melhor, a Pessoa. O Eu, o Verdadeiro, o real, é a Pessoa. O fundamento de todas as coisas é Deus. E Deus é Pessoa.

(...) o relato bíblico se presta a dizer três coisas. A primeira, é que, antes de existir qualquer coisa, existia alguém. Antes do Universo, o Criador era. A segunda, é que, antes de existir qualquer coisa, havia design-desígnio. Todas as coisas têm seu propósito, no Universo nada é aleatório. A máquina-macro-micro-cósmica exibe uma ordem tal que levou Einstein a afirmar que “Deus não joga dados com o Universo”. A terceira e última intenção do relato bíblico é afirmar que o Universo não é auto-existente, e, portanto, não é auto-sustentável. Na verdade, a segunda Lei da Termodinâmica diz que todo o organismo abandonado a si mesmo tende a se degenerar, e por isso é que a Bíblia diz que o Universo subsiste em Deus.

De facto, Deus é o fundamento de todas as coisas. Mas esse fundamento divino é uma Pessoa com vontade, intenção e mente criativa. Mais do que isso, esse fundamento divino de todas as coisas é uma Unidade de Pessoas, TriUnidade, Trindade: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. Deus é Pessoa, e nunca se mostrou mais pessoal do que em Jesus de Nazaré. Transcendência, imanência e transparência expressam perfeitamente a Pessoa de Jesus. O Evangelho de João é o texto sagrado por excelência para expressar a absoluta interacção entre essas dimensões divina e humana na pessoa de Jesus. Para cumprir seu propósito, o evangelista João se apressa em sintetizar na pessoa de Jesus Cristo os três conceitos. Fala da transcendência quando diz que “no princípio era o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus”. Fala também da imanência ao afirmar que “o Logos se fez carne e habitou entre nós”. E, finalmente, fala da transparência quando conclui: “cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigénito do Pai [...]. Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigénito, que está no seio do Pai, é quem o revelou”.

(Vivendo com Propósitos, Mundo Cristão, pp. 54-56)

           

            Com a inteligência humana diante de tudo o que somos e do que nos rodeia desde o átomo ao Universo, face à vida e à consciência, é o mistério que se nos depara necessariamente, que só cabe dentro do conceito de Deus. Ele pode ser entendido como energia impessoal ou como Ser pessoal, mas diante da minha própria pessoalidade e face à pessoa de Jesus Cristo só o posso entender como o Ser Supremo distinto de tudo o que existe, mas sem o qual nada existe e no qual tudo o que existe tem a sua existência.

            Parece-me que não há outra alternativa: ou deificar a matéria e a energia conferindo-lhe os atributos de omnisciência, omnipotência e omnipresença, ou reconhecer o “EU SOU O QUE SOU” encarnado em Jesus de Nazaré há dois mil anos atrás e que revolucionou a História, o mundo, a humanidade e o homem que O aceita.

            Alguns cientistas parecem começar a chegar a esta conclusão:

Apesar de Hoyle não ter abandonado sua teoria do estado estável, ele concluiu que a incrível complexidade até das formas mais simples de vida exigem um Criador. Depois de calcular que a probabilidade de a primeira vida ter surgido sem a intervenção inteligente é de 1 em 1040 000, Hoyle reconhece um Criador da vida.

(GEISLER, Norman, Enciclopédia de Apologética, Vida, p. 142)

 

Até Jastrow, uma agnóstico declarado, disse que “o facto de existirem coisas que eu ou qualquer outra pessoa chamaria de forças sobrenaturais em acção é agora, na minha opinião, cientificamente comprovado” (God and the astronomers, p. 15,18). Jastrow acrescenta algumas palavras embaraçosas tanto para astrónomos cépticos quanto para teólogos liberais:

Agora percebemos como a evidência astronómica leva à visão bíblica da origem do mundo. Os detalhes diferem, mas os elementos essenciais nos registos astronómicos e bíblicos da génese são os mesmos: a cadeia de eventos que leva ao homem começa repentina e drasticamente num determinado momento no tempo, numa explosão de luz e energia” (A scientist caught, p. 14).

Ele ainda observou:

Os astrónomos descobriram agora que ficaram encurralados porque provaram, pelos métodos, que o mundo começou repentinamente num acto de criação [...] E descobriram que tudo isso aconteceu como produto de forças que jamais poderão descobrir (God and the astronomers, p. 115).

Assim, ele afirma que “a busca dos cientistas pelo passado termina no momento da criação”. Diz ainda:

Esse é um acontecimento extremamente estranho, inesperado para todos, menos para os teólogos. Eles sempre aceitaram a palavra da Bíblia: ‘No princípio, criou Deus os céus e a terra’ (A scientist caught, p. 115).

Jastrow termina seu livro com palavras notáveis:

Para o cientista que viveu pela fé no poder da razão, a história termina como um pesadelo. Ele escalou a montanha da ignorância; está prestes a conquistar o pico mais alto; e, quando chega à última pedra, é cumprimentado por uma bando de teólogos que estavam sentados ali há séculos (God and astronomers, p. 116).

(GEISLER, Norman; Enciclopédia de Apologética, Vida, p. 142)

 

O trambolhão. O homem caiu...

            Ao contrário do que acontece hoje em dia nas espiritualidades em voga, segundo a fé cristã o homem é um ser caído, em crise, em inimizade com Deus, hostil.

            O conceito de pecador denuncia um homem afectado no mais profundo do seu ser, na sua imagem e semelhança de Deus.

            Segundo o nosso entender na essência do pecado encontramos a dúvida sobre a natureza de Deus, sobre quem Ele é, sobre as Suas reais intenções, sobre o Seu amor, justiça e santidade. Essa distorção induzida e absorvida acabou por insinuar-se na identidade humana. O ser humano é um ser em crise em si mesmo e em relação a Deus. Segundo a revelação bíblica na origem do pecado está uma caricatura de Deus e uma perversão da Sua palavra.

            Comer da árvore da ciência do bem e do mal é reivindicar o estatuto de decidir por si mesmo o que é certo e o que é errado, a verdade e a mentira; ser senhor de si mesmo, mandar em si próprio, decidir acerca do seu presente e futuro, excluir Deus como amigo, romper os laços de amor e de confiança. É ver Deus como rival, como oponente, como inimigo. A realidade presente acaba por denunciar essa contradição de cada um querer estabelecer os seus valores e princípios ou negá-los e pô-los em causa, e ao mesmo tempo a exigência de uma justiça forte e célere. Quando o primeiro predomina temos o relativismo e o pluralismo, quando o segundo se estabelece temos a ditadura e o legalismo. Se o primeiro gera o caos o segundo uma ordem falsa e hipócrita.

O homem não foi criado independente nem auto-suficiente. Independência e auto-suficiência não existe no Universo nem na própria tri-unidade divina (três um em). A lógica do poder e não do serviço, a lei do mais forte e não do amor, evidenciam a doença espiritual do homem em manifesta oposição ao que encontramos em Jesus, Deus e Homem entre nós. A demonstração extraordinária acerca de Deus que vemos na encarnação é a dependência que o Filho demonstra em relação ao Pai e ao Espírito Santo, e o modo como Ele não se inibe ou coíbe de solicitar, por exemplo, um pouco de água a uma mulher, samaritana e pecadora.

            A condição humana alienada do Criador é identificada como morte espiritual.

            Ravi Zacharias constata que “Ninguém quer admitir que na raiz de nosso mal haja uma espiritualidade mutilada.” Hoje em dia persiste a tendência para considerar que o problema do homem radica não dentro dele mas da parte de fora, não na sua natureza mas nas circunstâncias e ambiente. Mesmo quando de algum modo é admitido que a disfunção está no homem ela é do foro genético, o homem é vítima e a salvação poderá estar, no futuro, em alguma nova tecnologia que resolva os erros químicos que provocaram a deficiência.

            A explicação bíblica não goza de muitos adeptos e não é “politicamente correcta”. O problema do homem é de software ou de hardware? Quando descemos até aos elementos essenciais onde é que radica a diferença entre um e outro no que diz respeito à constituição física? As “anomalias” emocionais poderão restringir-se ao mesmo entendimento? Mas como entender a “avaria” no que diz respeito ao espiritual?

            Se entendermos a questão nos termos em que ela é colocada por Martyn Lloyd-Jones “a vida de Deus na alma de cada pessoa” (Do Coração de Deus; Textus; p. 107), a queda é o que ocorre com o homem quando se rompe o relacionamento de confiança e amor, de dependência e de intimidade. Amizade quebrada, rompida. Rotura, tensão, separação.

            Ed René Kivitz ajuda-nos nesta explicação na obra “Vivendo com Propósitos”:

Afinal, o que é o pecado? Como definir pecado para a sociedade contemporânea? Poderíamos teologizar, observando os três estágios, seguindo a ordem mais correcta que evolui (ou decai) de (1) pecado original – rebelião – para (2) natureza humana corrompida, isto é, a inclinação interior para o mal, que resulta em (3) práticas pecaminosas. A teologia bíblica concorda que existe a dimensão do pecado restrita a actos e práticas: o que fazemos ou o que deixamos de fazer, em razão das leis que expressam e revelam o carácter de Deus. Há uma lógica nos imperativos morais bíblicos: fomos criados à imago Dei e, nesse caso, nossa plena humanidade deve desenvolver-se em conformidade com o Deus que expressamos e de quem derivamos. Em outras palavras, se Deus é amor, não podemos ser ódio, e por isso não podemos matar – banir pessoas de nossa existência. Não podemos mentir, porque Deus é a verdade, e somente se relaciona com o que é verdadeiro. Nosso vínculo com Deus, de modo que sejamos inteiros, completos, saudáveis e equilibrados, depende de funcionarmos em conformidade com o seu carácter e com sua natureza. Nesse caso, as regras e leis divinas são muito mais uma espécie de “manual do proprietário” do que imposições de uma divindade melindrosa. Quando a tradição de espiritualidade judaico-cristã fala de “fazer e deixar de fazer”, está falando de “pecados”, no plural.

Mas a tradição de espiritualidade judaico-cristã apresenta o pecado também em outra dimensão. Pecado é um estado de rebelião contra Deus, uma recusa de submissão, uma pretensão de autonomia (ser lei para si mesmo) em relação a Deus. Nesse caso, pecado é um status diante de Deus. Pecado, então, é também uma posição que ocupamos em relação a Deus, o que define a maneira como nos relacionamos com ele. A Bíblia diz que todos os que estão em rebelião contra Deus são filhos da desobediência, sobre quem se manifesta a ira de Deus. Agora já não estamos falando em “fazer e deixar de fazer”, mas em uma atitude em relação a Deus, pecado, no singular.

Finalmente, pecado é um estado de ser. Aqueles que estão em rebelião, na posição de filhos da desobediência, estão “na carne”, alheios à vida de Deus, vivendo com seus próprios recursos e impossibilitados de agradar a Deus, pois o ser humano distante de Deus pode até ter o desejo de fazer o bem, mas é escravizado pelo mal, pois está sob a acção dos espíritos que operam nos filhos da desobediência. Já não se trata de uma atitude em relação a Deus, nem mesmo de “fazer ou deixar de fazer”. Agora, pecado é uma inclinação, uma disposição interior, uma tendência para o mal. Nesse caso, o ser humano é tão culpado por pecar quanto o tuberculoso é culpado por tossir. O problema já não é a tosse, mas a tuberculose.

(Vivendo com Propósitos, Mundo Cristão, pp. 96,97)

 

            Face à cultura dominante este mesmo autor constata:

A maldade intrínseca ao ser humano foi deixada na lata do lixo da cultura religiosa. Tudo, agora, é uma questão de pensar correctamente, de mudar condicionamentos mentais, de domesticar impulsos destrutivos, de construir hábitos saudáveis. O sucesso é um torrão de açúcar para milhares de humanos bestializados pelo behaviorismo, que mascara as tensões da alma e esconde a infelicidade ontológica que toda gente carrega no peito até descansar em Deus.

(Vivendo com Propósitos, Mundo Cristão, p. 32)

 

            Segundo o texto da revelação bíblica a realidade da condição humana presente passa pela “morte espiritual” original, o que a história acaba por respaldar de sobejo em todos os cortejos fúnebres da existência.

 

Operação de resgate. Jesus é o Salvador...

            Arrependimento. Conversão. Novo nascimento. Libertação. Remissão. Expiação. Substituição. Propiciação. Justificação. Reconciliação. Salvação. Graça. Fé. Revelação. Cruz. Morte. Ressurreição. Sentados nos lugares celestiais.

            Esta é a linguagem da intervenção de Deus na história do homem para reconciliação. Importa que não a percamos de vista, não a abandonemos, mas que cavemos cada vez mais fundo no sentido bíblico de percebermos os seus conteúdos e significados. Importa chamar o homem à humildade de se sentar aos pés do Divino Mestre para captar as realidades espirituais que lhe escapam. Assim se exprime o apóstolo dos gentios nos quais nos incluímos: “Mas, se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus. Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor, e a nós mesmos como vossos servos por amor de Jesus. Porque Deus que disse: De trevas resplandecerá luz –, ele mesmo resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo.” (2 Co 4:4-6). “Ora, tudo provém de Deus que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação, a saber que Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus. Àquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus.” (2 Co 5:18-21).

 

Nova vida...

            Santificação. Obediência. Dependência. Serviço. Renúncia. Abnegação. Negar-se a si mesmo. Tomar a sua cruz. Perdão. Cheio do Espírito. Baptizado com o Espírito Santo. Dons. Ministérios. Fruto do Espírito. Oração. Leitura e meditação na Palavra. Partilha da fé.

            A vida cristã é uma verdadeira aventura de crescimento e desenvolvimento, segundo o exemplo deixado a nós por Jesus Cristo e após a transformação salvífica que Ele realiza na vida dos que O aceitam. É uma peregrinação, uma caminhada no e pelo caminho que é Jesus Cristo, um andar com Deus segundo a Sua revelação. O próprio Mestre deixou bem explícito esse processo: “Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.” (Mt 11:28-30).

            Faço aqui referência a uma afirmação muito interessante do pensador cristão Ravi Zacharias, no livro “Do coração de Deus”, quando escreve: “Jesus não veio a este mundo para fazer de más pessoas boas pessoas, e, sim, para fazer de pessoas mortas pessoas vivas. Aquelas que estavam mortas em Deus ressuscitam nele através da obra do Espírito Santo”, (p. 111)

            O Dr. Martyn Loyd-Jones a este propósito refere que o cristianismo “é uma infusão da natureza divina em cada pessoa: a vida de Deus na alma de cada pessoa”. (O Segredo da Bênção Espiritual, Textus, p. 103).

            O mesmo autor exprime-se nos seguintes termos:

O cristão não é aquele que absorve uma filosofia cristã ou uma parte do ensino de nosso Senhor Jesus Cristo. Isso não é cristianismo. As pessoas que o fazem são apenas homens e mulheres naturais, que pertencem, em certo sentido, a Adão. Isso é totalmente plausível e, com frequência, acontece. Comumente, as pessoas tomam emprestados a ética e os ensinamentos cristãos, mas isso não os torna cristãos. O que transforma as pessoas em cristãos verdadeiros é o facto de que Deus operou um milagre no interior delas, e essa acção é nada menos que uma nova criação. É um novo nascimento; é a dádiva de uma nova vida – estes são os termos utilizados. “Ele vos deu vida, estando vós mortos”, escreveu o apóstolo Paulo, em Efésios 2.1. Esta é a diferença entre aqueles que são cristãos e os que não possuem essa identidade. Esta é a diferença entre uma pessoa que está espiritualmente morta e outra cujo espírito recebeu o sopro da vida.

Nenhum ser humano pode criar a vida – isso é impossível. Deus é o único autor da vida. Eis por que estou enfatizando o carácter miraculoso da bênção que nos é oferecida por intermédio de Jesus Cristo. Não nos é prometido que seremos homens e mulheres melhores, mas que seremos homens e mulheres novos, totalmente diferentes.

O que, então, é o Cristianismo? Bem, permita-me usar o famoso título de um antigo livro de Henry Scougal, que é: The Life of God in the Soul of Man (A Vida de Deus na Alma do Homem).

(O Segredo da Bênção Espiritual, Textus, p. 75).

 

Vida eterna...

            Morte física ou arrebatamento. Avaliação e recompensa. Ressurreição com um novo corpo. Novos céus e nova terra.

            A esperança cristã não se resume a esta vida terrena. Ela vai muito além. A realidade eterna não é uma desmotivação perante os desafios do contemporâneo. A História da Igreja comprova-o sobejamente. Na medida em que os cristãos se encontraram mais comprometidos e conscientes da sua vocação e destino eternos, mais se devotaram ao bem do próximo, tanto do outro lado da rua como do outro lado do mar.

            Nunca por nunca ser enfatizaremos demasiado as realidades eternas. O apóstolo Paulo coloca as coisas nestes termos: “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.” (1 Co 15:19). “Sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna, nos céus. E, por isso, neste tabernáculo gememos, aspirando por ser revestidos da nossa habitação celestial; se, todavia, formos encontrados vestidos e não nus. Pois, na verdade, os que estamos neste tabernáculo gememos angustiados, não por querermos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida. Ora, foi o próprio Deus quem nos preparou para isto, outorgando-nos o penhor do Espírito. Temos, portanto, sempre bom ânimo, sabendo que, enquanto no corpo, estamos ausentes do Senhor; visto que andamos por fé, e não pelo que vemos. Entretanto estamos em plena confiança, preferindo deixar o corpo e habitar com o Senhor. É por isso que também nos esforçamos, quer presentes, quer ausentes, para lhe ser agradáveis. Porque importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo.” (2 Co 5:1-10).

 

 

EVIDÊNCIAS DA FÉ

Evidências subjectivas e objectivas da fé cristã...

Evidências objectivas e subjectivas da história...

Evidências objectivas e subjectivas da Natureza...

Evidências objectivas e subjectivas do pensamento, da consciência e da espiritualidade...

            Estamos rodeados de evidências da existência do Criador, Sustentador e Salvador. Nós mesmos somos uma evidência. Quão pouco sabemos de nós mesmos desde a constituição física, à alma e ao espírito, mesmo quando já se desvendou uma parte do código genético. Quanto ainda há para descobrir no que diz respeito ao nosso cérebro, aos olhos, ao sistema nervoso e a tantas outras partes do nosso ser? O que há para saber sobre a nossa alma (pensamento, emoções, sentimentos, vontade) e sobre o nosso espírito? “Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras até aos confins do mundo. Aí pôs uma tenda para o sol, o qual, como noivo que sai dos seus aposentos, se regozija como herói, a percorrer o seu caminho. Principia numa extremidade dos céus, e até à outra vai o seu percurso; e nada refoge ao seu calor.” (Sl 19:1-6). “Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem; os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado, e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda.” (Sl 139:14-16).

É fascinante, também, que do outro lado dos meus olhos, enquanto olho para o céu para contar estrelas, existe outro universo, chamado cérebro, um pequeno globo de 1,36 kg, composto de um quarto de tecido gelatinoso, que também permanece, em grande medida, um mistério. O cérebro é formado por 100 bilhões de neurónios, ou células nervosas, que enviam e recebem mensagens através de pulsos eléctricos. Cada célula nervosa é capaz de comunicar-se ao mesmo tempo com 1.000 a 6.000 outras células nervosas, fazendo cerca de 100 trilhões de conexões a cada dado instante. Essa comunicação entre as células nervosas é possível por causa dos mediadores químicos chamados neurotransmissores, que ocupam o espaço entre os neurónios, chamado sinapse. Cada pensamento que temos, cada sensação e emoção que sentimos derivam-se dessas conexões de trilhões e trilhões de encontros entre neurónios. Já foram identificados mais de 50 neurotransmissores, dentre eles a adrenalida, a noradrenalina e a famosa “molécula da felicidade”, a serotonina. Para complicar ainda mais, cada sinapse (espaço entre neurónios) pode comunicar-se em várias intensidades, assim como a voz pode funcionar em diferentes volumes. Isso faz com o número total de configurações distintas possíveis entre os 100 bilhões de neurónios do seu cérebro é dez elevado à potência de um trilhão ou 101.000.000.000.000. Quem me ensinou isso foi o Dr. Herbert Benson.

(KIVITZ, Ed René. Vivendo com Propósitos, Mundo Cristão, p. 246)

 

            Quando o apóstolo Paulo discursou no areópago de Atenas enumerou várias das evidências (naturais, históricas, antropológicas, psicológicas, sociológicas e religiosas) que desde sempre têm acompanhado o homem relativamente à existência de Deus e aos Seus desígnios e que culminaram na pessoa de Jesus Cristo: “Senhores atenienses! Em tudo vos vejo acentuadamente religiosos; porque passando e observando os objectos de vosso culto, encontrei também um altar no qual está inscrito: AO DEUS DESCONHECIDO. Pois esse que adorais sem conhecer, é precisamente aquele que eu vos anuncio. O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas. Nem é servido por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais; de um só fez toda raça humana para habitar sobre a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação; para buscarem a Deus se, porventura, tacteando o possam achar, bem que não está longe de cada um de nós. Pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como alguns dos vossos poetas têm dito: Porque dele também somos geração. Sendo, pois, geração de Deus, não devemos pensar que a divindade é semelhante ao ouro, à prata, ou à pedra, trabalhados pela arte e imaginação do homem. Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos em toda a parte se arrependam; porquanto estabeleceu um dia em que há-de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos.” (At 17:22-31).

O teólogo inglês John Stott no comentário à epístola aos Romanos, escreve sobre este assunto o seguinte:

Agora Paulo deixa de lado a questão da prioridade da fé de Abraão e passa a falar de sua razoabilidade. Dizer que a fé é algo “razoável” pode ser surpresa para muita gente; afinal, sempre se pressupõe que fé e razão fossem meios alternativos – portanto, mutuamente incompatíveis – de se compreender a realidade. Não seria a fé um sinónimo de credulidade e até mesmo de superstição? Não seria uma desculpa para a irracionalidade, para aquilo que Bertrand Russell chamou de “uma convicção que não pode ser abalada por evidência contrária”?

Não. Apesar de que, na verdade, a fé ultrapassa a razão, ela tem sempre uma base firmemente racional. Fé é acreditar ou confiar em uma pessoa, e sua razoabilidade depende da confiabilidade da pessoa em quem se confia. É sempre razoável confiar em quem é digno de confiança. E quem melhor do que Deus para merecer nossa confiança? Abraão sabia muito bem disso; e nós ainda mais do que Abraão, pois tivemos o privilégio de comprová-lo, uma vez que vivemos depois da morte e ressurreição de Jesus, facto através do qual Deus se revelou plenamente e mostrou ser digno de inteira confiança. Nós, particularmente, antes de podermos acreditar nas promessas de Deus, precisamos ter certeza do seu poder (de que ele é capaz de manter suas promessas), assim como da sua fidelidade (confiar que ele as cumprirá). São estes dois atributos de Deus que se constituíram no fundamento para a fé de Abraão, e é sobre eles que Paulo reflecte nesta passagem.

(STOTT, John. Romanos, ABU, pp. 153,154)

Ainda na mesma obra o mesmo pensador cristão acrescenta:

Fé não é enterrar a cabeça na areia, nem “torrar os miolos” para acreditar naquilo que sabemos não ser verdade, ou então assobiar no escuro para esquecer o medo. Pelo contrário, fé é uma confiança racional. Não se pode crer sem pensar.

(STOTT, John. Romanos, ABU, p. 158)

 

Há uma razão suficiente – JESUS CRISTO...

            Philip Yancey no livro “O Jesus que eu nunca Conheci”, refere:

Deus não é mudo: a Palavra falou, não saída de um redemoinho, mas da larinje humana de um judeu palestino. Em Jesus, Deus se deitou na mesa de dissecação, por assim dizer, estendeu-se na postura da crucificação para o escrutínio de todos os cépticos que já viveram. Entre os quais me incluo.

(Editora Vida, p. 17)

 

            Se Ele não convence – nada convence. A identidade que Jesus de Si mesmo apresentou a partir da expressão tão reveladora da divindade na cultura e espiritualidade judaicas, não encontra paralelo e é de facto insuperável: “Eu sou o pão da vida. (...) Eu sou o pão vivo que desceu do céu (...).” (Jo 6:48,51). “(...) sou a luz do mundo.” (Jo 9:5). “Eu sou a porta. (...) Eu sou o bom pastor.” (Jo 10:9,11). “Eu sou a ressurreição e a vida.” (Jo 11:25). “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida.” (Jo 14:6). “Eu sou a videira verdadeira (...)”. (Jo 15:1).

            No meu entender a razão das razões da fé cristã é o seu autor – CRISTO!

            Dou a palavra a Ed René Kivitz no livro recentemente lançado em Portugal, “Vivendo com Propósitos”:

Como disse Charles Stanley, a grande notícia do cristianismo não é apenas que Jesus é igual a Deus, mas sim que Deus é igual a Jesus. Aquele Eu eterno, o Princípio absoluto de toda a existência, Aquilo por que todo este mundo é penetrado, da fórmula sânscrita “Tu és isto”, descrito nos Vedas, no Upanixade e no Bhagavad-Gita – textos sagrados das tradições hinduístas, os gregos chamavam de Logos. E exactamente nesse contexto o evangelista João introduz a pessoa de Jesus de Nazaré: o Logos que se fez carne.

Essa é a compreensão dos apóstolos, que assim se identificaram com o Cristo. O Novo Testamento apresenta Jesus Cristo como: aquele em quem foram criadas todas as coisas, pois sem ele nada do que foi feito se fez; a imagem do Deus invisível; o primeiro e único-gerado de toda a criação; aquele que enche todas as coisas, é tudo em todos; aquele em quem habita toda a plenitude da divindade; aquele que é antes de todas as coisas e em quem tudo subsiste; aquele em que habita corporalmente toda a plenitude da divindade; a exacta expressão do Ser, em quem estão sustentadas todas as coisas.

A bem da verdade, Huxley observa que “a doutrina segundo a qual Deus pode encarnar em forma humana encontra-se na maioria das principais exposições da filosofia perene (a metafísica que reconhece a realidade divina) – no hinduísmo, no budismo maaiana, no cristianismo e no maometismo dos sufis, pelo qual o Profeta foi igualado ao Logos eterno. Mas a doutrina cristã da encarnação da Divindade em forma humana difere da doutrina da Índia e do Extremo Oriente, uma vez que afirma que só pode ter havido e só pode haver um Avatar” – no hinduísmo, deus reencarnado; no cristianismo, Deus encarnado. De facto, diz Huxley, “Krishna é uma encarnação de Brama; Gautama Buda, do que os maaianistas chamam de Dharmakaya, a realidade sem nome e sem carácter em sua natureza final, a Mente, o fundamento espiritual de todo o ser”. Nesses casos, porém, nem Buda nem Krishna são pessoas, mas sim estágios espirituais de integração com a realidade última, em que o eu particular funde-se com o “Eu sem carácter e sem nome”. Apenas no cristianismo Deus é Persona. Pessoa que fala, que sente e que tem vontade. Pessoa que se manifestou em carne, em Jesus de Nazaré, e que nos convida a todos a integrar essa realidade última. Mas com a ressalva que faz toda a diferença: “na sua natureza e no seu significado mais profundos o nosso universo é uma comunidade de amor ilimitado e absolutamente capaz”.

(KIVITZ, Ed René. Vivendo com Propósitos, Mundo Cristão, pp. 56,57)

 

A ressurreição é a pedra de toque da fé cristã. O apóstolo escreveu-o logo no primeiro século, oferecendo o argumento que poderia invalidar todo o edifício da fé cristã: “E se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados.” (1 Co 15:17). Desde o início a crucificação e a ressurreição de Jesus foram a principal ênfase da mensagem apostólica. Ela não foi morta à nascença porque o sepulcro estava e continua vazio. Ele ressuscitou – a morte foi vencida, o pecado e o seu salário foram anulados mediante o sacrifício do Cordeiro de Deus. A justiça divina foi satisfeita e o perdão está disponível – o amor venceu! “Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós, com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós como vós mesmos sabeis; sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos; ao qual, porém, Deus ressuscitou, rompendo os grilhões da morte; porquanto não era possível fosse ele retido por ela.” (At 2:22-24). “A este Jesus Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas.” (At 2:32). “Dessarte matastes o Autor da vida, a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, do que nós somos testemunhas.” (At 3:15). “Tomai conhecimento vós todos e todo o povo de Israel de que em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, a quem vós crucificastes, e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, sim, em seu nome é que este está curado perante vós. Este Jesus é a pedra rejeitada por vós, os construtores, a qual se tornou a pedra angular. E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos.” (At 4:10-12). “O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, a quem vós matastes, pendurando-o num madeiro. Deus, porém, com a sua destra, o exaltou a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados.” (At 5:30,31). “Esta é a palavra que Deus enviou aos filhos de Israel, anunciando-lhes o evangelho da paz, por meio de Jesus Cristo. Este é o Senhor de todos. Vós conheceis a palavra que se divulgou por toda a Judeia, tendo começado desde a Galileia, depois do baptismo que João pregou, como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele; e nós somos testemunhas de tudo o que ele fez na terra dos judeus e em Jerusalém; ao qual também tiraram a vida, pendurando-o no madeiro. A este ressuscitou Deus no terceiro dia, e concedeu que fosse manifesto, não a todo o povo, mas às testemunhas que foram anteriormente escolhidas por Deus, isto é, a nós que comemos e bebemos com ele, depois que ressurgiu dentre os mortos; e nos mandou pregar ao povo e testificar que ele é quem foi constituído por Deus Juiz de vivos e de mortos. Dele todos os profetas dão testemunho de que, por meio do seu nome, todo o que nele crê recebe remissão de pecados.” (At 10:36-43). “Depois de cumprirem tudo o que a respeito dele estava escrito, tirando-o do madeiro, puseram-no num túmulo. Mas Deus o ressuscitou dentre os mortos; e foi visto muitos dias pelos que com ele subiram da Galileia para Jerusalém, os quais são agora as suas testemunhas perante o povo.” (At 13:29-31). “Paulo, segundo o seu costume, foi procurá-los, e por três sábados arrazoou com eles, acerca das Escrituras, expondo e demonstrando ter sido necessário que o Cristo padecesse e ressurgisse dentre os mortos; e que este é o Cristo, Jesus, que eu vos anuncio.” (At 17:2,3).

            O coração que não quer nunca se deixará convencer. Assim o afirmou o próprio Senhor quando esteve entre nós na Sua encarnação: “Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tão pouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos.” (Lc 16:31).

            Não há uma razão absoluta que inviabilize o não de quem não quer Deus. O Criador não se impõe. Ele sabe perfeitamente como salvaguardar e garantir a liberdade do ser humano. Ele mesmo a respeitará em absoluto no último acto da História da rebeldia humana, quando der a cada um em função da sua escolha e opção livre. “Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos, e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará. (...) Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.” (Jo 8:31,32,36).

            A fé como confiança pessoal em Cristo (não em algo, coisa ou ideia).

            Mesmo diante de Deus o céptico continuará a não querer “crer”. Na presença do próprio Deus o céptico continuará a não crer no sentido de aceitar, de confiar e de adorar.

            Segundo o texto bíblico o Diabo sabe melhor do que ninguém que Deus existe, sabe melhor do que ninguém que não pode escapar à Sua soberania mas, mesmo assim, não O adora, com tudo o que isso implica em estilo de vida.

            Não sei até que ponto na eternidade alguém dirá: “se eu soubesse o que sei hoje teria aceite”.

            As religiões são por um lado evidências da dimensão espiritual do homem à qual não pode escapar, mas ao mesmo tempo são fruto e evidência da inimizade e hostilidade ao único Senhor. Como explicou o apóstolo dos gentios: “A ira de Deus se revela do céu contra toda a impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça; porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são por isso indesculpáveis; porquanto, tendo conhecimento de Deus não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos, e mudaram a glória de Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis. Por isso Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seus próprios corações, para desonrarem os seus corpos entre si; pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura, em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém.” (Rm 1:18-25).

            A Bíblia claramente afirma que há apenas um meio de nos chegarmos a Deus, há um só Mediador – um só Salvador. Foi o próprio Jesus quem declarou taxativamente, pese toda a animosidade que desde sempre estas palavras provocaram: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.” (Jo 14:6). O apóstolo Paulo ao escrever ao seu discípulo Timóteo fá-lo com a mesma ênfase: “Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem.” (1 Tm 2:5).

            Outra tónica singular do evangelho é o facto de o homem por si só nunca se poder salvar a si mesmo ou aos outros. Não é pelas obras, pelo esforço, pela conquista, pelo mérito pessoal. Aqui toda a auto-ajuda, tão popular nos dias de hoje, cai por terra. A salvação é pela graça – total e absoluta falta de mérito da nossa parte. Tudo o que concerne à nossa reconciliação com Deus já foi efectuado por Jesus. A nova vida, um novo estilo de vida é o resultado, o efeito e a consequência. O apóstolo Paulo pelo Espírito Santo declara-o de um modo totalmente transparente e acessível: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.” (Ef 2:8-10). Se não podemos encerrar o mar dentro de um balde, também não podemos esperar abarcar Deus por nós mesmos. Mesmo uma gota de água nas nossas mãos em relação a Deus teria para nós a mesma impossibilidade no domínio da qualidade e da essência. Termos a natureza de Deus só pela Sua acção. Isso é salvação. Assim se expressa o apóstolo Pedro: “Visto como pelo seu divino poder nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude, pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas para que por elas vos torneis co-participantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo.” (2 Pd 1:3,4).

 

Uma razão chamada amor incondicional que se articula e conjuga com graça, perdão, aceitação, misericórdia...

Deus falou por esses dias nas telas de Hollywood por meio de Jim Carrey e Morgan Freeman. O Todo Poderoso é a história de um homem que reclama de Deus o tempo todo, acreditando que seus infortúnios são provocados, quer pela actividade quer pela omissão do Todo-Poderoso. No ápice de sua angústia, Bruce decide jogar na cara de Deus todos os impropérios que muitos de nós gostaríamos de falar mas não temos coragem. A surpresa é que Deus aceita o desafio da forma mais surpreendente: deixa Bruce “ser Deus” por uma semana. Ao delegar todos os seus poderes, Deus estabelece duas regras: não diga a ninguém que você é Deus e não interfira no livre-arbítrio. Depois de muita confusão, chega-se ao coração do filme. Bruce pergunta para Deus: “Como posso fazer com que as pessoas me amem sem interferir em seu livre-arbítrio?”, ao que Deus reage dizendo que está procurando essa resposta há séculos.

(Ed René Kivitz, Vivendo com Propósitos, Mundo Cristão, pp. 172,173)

 

A essência do bem é o amor (o que se consuma na santidade – intimidade plena). Não o certo ou errado, mas o bem e o mal, o amor no centro da motivação. O certo com a motivação errada é mal.

            A essência do mal é a ausência do amor (o que o pecado é como separação e não atingir o alvo).

            A História da Salvação é a História do Amor de Deus (que é amor segundo a caracterização e descrição bíblica joanina) para com o Homem até à sua expressão máxima – a cruz, na qual o Criador encarnado morre no lugar da criação humana hostil e rebelde, como substituto para perdão e reconciliação, restauração que se traduz no novo nascimento (ser filho – família de Deus).

            O amor nasce, surge e desenvolve-se no companheirismo e na intimidade. De vários homens na Bíblia se diz simplesmente, mas de modo muito eloquente, que andaram com Deus e eram amigos de Deus.

            Os nossos primeiros pais deram abrigo, alojaram e acolheram no coração o vírus que corrompeu a essência de Deus neles – o amor ágape.

            E se o amor não existe sem justiça também não se conforma nem resigna com o mal; daí que Jesus tenha vindo e tenha demonstrado o amor e a justiça na cruz satisfazendo as próprias exigências divinas. O clímax do amor é a dádiva da própria vida. A morte operada pelo pecado foi vencida pela dádiva da vida de Jesus em amor absoluto e justiça. Espiritualmente o pecador é vivificado e nasce como filho de Deus.

            Diante da morte de Cristo sabemos sem sombra de dúvida quem Deus é em amor e justiça. A mentira original foi desmascarada, desmontada e desactivada. O amor desponta do conhecimento do coração em intimidade e relacionamento.

            Fé é confiança em Deus que se conhece e que é amor, para obediência e dependência.

Jesus Cristo apresenta o principal de todos os mandamentos nestes termos: “O principal é: Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor! Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de toda a tua força. O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.” (Mr 12:29-31). O novo mandamento e a identificação dos seguidores de Cristo são apresentados por Ele mesmo desta forma: “Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros.” (Jo 13:34,35). O amor de Jesus é lugar em que somos convocados a permanecer nos moldes por Ele assim definidos: “Como o Pai me amou, também eu vos amei; permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; assim como também eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e no seu amor permaneço. (...) O meu mandamento é este, que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos. (...) Isto vos mando, que vos ameis uns aos outros.” (Jo 15:9,10,12,13,17).

            Paulo apresenta-nos o amor divino como o caminho sobremodo excelente (1 Coríntios 13). O mesmo apóstolo incita-nos à verdade em amor (Ef 4:15), de modo a crescermos em tudo naquele que é o cabeça – Cristo. Pelos cristãos em Filipos ele mesmo ora: “o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepção, para aprovardes as coisas excelentes e serdes sinceros e inculpáveis para o dia de Cristo, cheios do fruto de justiça, o qual é mediante Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus.” (Fp 1:9-11). Pelos efésios ora da mesma forma: “e assim habite Cristo nos vossos corações, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, a fim de poderdes compreender com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede todo o entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus. (...)” (Ef 3:17-19). Aos coríntios refere que é o amor de Cristo que nos constrange: “Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos, logo todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou.” (2 Co 5:14,15). Aos gálatas declara que o amor é o primeiro “gomo” do fruto do Espírito: “Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei.” (Gl 5:22,23). Aos romanos afirma: “A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, excepto o amor com que vos ameis uns aos outros; pois quem ama ao próximo, tem cumprido a lei. Pois isto: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e se há qualquer outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor não pratica o mal contra o próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor.” (Rm 13:8-10). Aos colossenses ensina: “Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós; acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição.” (Cl 3:13,14).

            O apóstolo João escreve toda a sua primeira epístola quase sempre em torno do amor, atingindo o ápice da revelação acerca da natureza de Deus, exclamando: “Deus é amor” (1 Jo 4:8,16). No Evangelho por ele escrito encontramos, na mesma linha, o texto universalmente conhecido e que condensa todo o plano e propósito divinos a respeito da nossa salvação: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigénito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3:16).

O Velho Testamento não é excepção na referência ao amor divino e à sua importância na vida do homem e da mulher, contrariando em absoluto a ideia de que temos um Deus no Velho Testamento e outro no Novo. Só o livro do Cântico dos Cânticos ou de Cantares de Salomão é uma autêntica exaltação do amor conjugal e daí um símbolo magnífico do amor que existe entre Cristo e a Igreja. O profeta Isaías fala nestes termos acerca do amor de Deus: “Acaso pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti. Eis que nas palmas das minhas mãos te gravei; os teus muros estão continuamente perante mim.” (Is 49:15,16). O profeta Jeremias refere-se a Deus como Pai: “Virão com choro, e com súplicas os levarei; guiá-los-ei aos ribeiros de águas, por caminho recto em que não tropeçarão; porque sou pai para Israel, e Efraim é o meu primogénito.” (Jr 31:9). O profeta Oseias exprime-se assim: “Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egipto chamei o meu filho. Quanto mais eu os chamava, tanto mais se iam da minha presença; sacrificavam a Baalains e queimavam incenso às imagens de escultura. Todavia, eu ensinei a andar a Efraim; tomei-os nos meus braços, mas não atinaram que eu os curava. Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor; e fui para eles como quem alivia o jugo de sobre as suas queixadas, e me inclinei para dar-lhes de comer.” (Os 11:1-4).

Aqui convém deixar um nota bem enfática no que diz respeito ao amor divino que é um amor santo e justo, face à cultura mediática que nos cerca e tantas vezes sufoca. Falar do amor de Deus não quer dizer anuir diante do vício, da maldade e do pecado. A outra face do amor é a ira do Senhor dos Exércitos contra tudo o que perverte e corrompe, destrói e arruína. O amor de Deus não encolhe os ombros diante do pecado, pois o Senhor deu-se a Si mesmo em sacrifício para nos libertar dele e nos fazer ingressar no reino do Seu amor. “Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados.” (Cl 1:13,14).

 

A busca pessoal

            Acredito firmemente, segundo a revelação bíblica, que quando um homem, qualquer que ele seja, busca a Deus de todo o seu coração, Deus se lhe revela. O profeta Jeremias coloca isto nestes termos sintomáticos: “Buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes de todo o vosso coração.” (Jr 29:13), reiterando o que muito tempo antes Moisés já tinha referido (Dt 4:29).

            Existe uma experiência narrada no Livro que apresenta a história dos primórdios da igreja cristã, cujos contornos são elucidativos a respeito de um centurião romano de nome Cornélio, em que a intervenção sobrenatural suplanta a ignorância e incapacidade humanas: “Cornélio, a tua oração foi ouvida, e as tuas esmolas lembradas na presença de Deus. Manda, pois, alguém a Jope a chamar Simão, por sobrenome Pedro; acha-se este hospedado em casa de simão, o curtidor, à beira-mar.” (At 10:31,32). Uma situação semelhante aconteceu anteriormente com um eunuco etíope que regressava depois de adorar em Jerusalém, e lendo o profeta Isaías, não entendia o que estava lendo: “Correndo Filipe, ouviu-o ler o profeta Isaías, e perguntou: Compreendes o que vens lendo? Ele respondeu: Como poderei entender, se alguém não me explicar? E convidou Filipe a subir e a sentar-se junto a ele.” (At 8:30,31).

            O que faz falta é sede genuína da verdade divina e disposição do coração e da mente, para a receber e acatar. O salmista escreve acerca desta sede de um modo muito revelador: “Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo: quando irei e me verei perante a face de Deus?”(Sl 42:1,2).

 

Ética, moral, existência de Deus, relacionamento e intimidade com Ele, natureza divina no homem, nova sociedade, estado e igreja, novos céus e nova terra.

            “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1:26).

            “Da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2:17).

            Sem Deus ficamos à mercê do relativismo e sem garantias de uma justiça justa. O juízo final é uma exigência da consciência. O Deus legislador e juiz é o mesmo que lhe obedeceu integralmente e substituiu todos os prevaricadores na penalidade que lhes estava prescrita. Legislador, Juiz, Cidadão, Salvador, Advogado.

            A súmula do pecado adâmico é ser lei para si mesmo ou seja, governar-se a si mesmo, ser dono de si mesmo e auto-suficiente, como já referimos antes.

            A lei da consciência privada conduziu ao dilúvio segundo a história bíblica. A lei de cada um em confronto, deu origem à lei do mais forte.

            O Paraíso não foi suficiente para manter o homem (Adão e Eva) ligado a Deus, na Sua dependência e obediência.

            Não somos responsáveis pelo pecado de Adão e Eva mas pelos nossos próprios.

            Se o Paraíso não conseguiu manter o homem ligado a Deus, a cruz de Cristo deve chegar para nos reconduzir a Ele (bem como da selva em que o mundo se tornou).

            Somos responsáveis pelo maior de todos os pecados que é a recusa do amor de Deus – o mesmo de Adão (só que o nosso acrescido de ter a cruz como expressão sublime, inexcedível e incompreensível dele).

 

            Deus deu a lei e ela serviu para mostrar a necessidade da cruz e do Salvador...

            O homem não conseguiu viver pela lei... embora a lei servisse de travão à depravação...

            A lei acabou por demonstrar e ditar a condenação de todo o homem e mulher...

            Salvação só pode ser pela graça em Jesus Cristo mediante a fé.

            Fé que nos vem pela Palavra que nos desvenda o incomensurável amor de Deus.

            É-nos restituída a imagem conforme a semelhança de Deus que é amor – agora não apenas como criaturas mas como filhos do Altíssimo.

            Nos novos céus e nova terra a lei será o amor em gratidão, louvor e adoração eternos no conhecimento pessoal de Deus que é amor e que o demonstrou cabalmente na encarnação e na morte de cruz.

            Quase que nos atrevemos a constatar e a dizer que não fora o pecado nunca saberíamos que Deus nos ama tanto e que é amor em absoluto.

           

            O Estado acaba por decorrer da necessidade da lei para o governo da sociedade.

            A lei de Deus não se impõe.

            Num Estado laico a lei consagra o que a sociedade em termos gerais ou uma élite dentro dela consideram como válido e correcto, num determinado momento.

            Mesmo assim o cidadão acaba por infringir e tentar escapar ao seu exercício seja nos impostos, na qualidade dos produtos que se vendem, na velocidade, na observação dos seus deveres e compromissos financeiros, etc. A corrupção alastra e os mais fortes sabem melhor como contorná-la e tirar partido dela.

            Para o cristão a lei divina estará sempre acima da lei do Estado, embora o respeito e a obediência para com esta seja um requisito daquela. “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” (Mt 22:21).

            O não reconhecimento de uma autoridade absoluta é o que se vê e o que se verá. Uma autoridade absoluta que não se impõe. A autoridade absoluta que se oferece para ser aceite na dimensão do amor e do perdão, da graça e da justificação. Uma autoridade absoluta que no tempo determinado dará a cada um segundo o que cada um escolher diante do que já está feito e consumado em amor.

 

            Deus, o próprio Deus, na Sua encarnação tornou-se modelo próximo da obediência...

            A lei traduz a essência/natureza moral de Deus...

            Mas a vivência dela na Trindade, no Deus trino, três em um, é o amor... projecto que se estende à Igreja... relacionamento em amor... o amor como cumprimento da lei... a obediência em amor e do amor... amor obediente...

 

            O fulcro da questão é que sem Deus ninguém tem autoridade para dizer que isto está bem ou mal – cai-se no relativismo como absoluto, negando o absoluto, embora nenhum relativista goste de ser tratado relativamente.

 

O mal e o sofrimento

            Nenhuma filosofia é suficientemente para resolver a questão do mal e do sofrimento. Só amor incondicional e a fé é uma ajuda na partilha. Segundo a Bíblia Deus partilhou o nosso sofrimento. Deus sabe por experiência própria o que é o sofrimento, todo ele passou pelas Suas mãos. Temos um rosto molhado pelas lágrimas no Deus da Bíblia.

            O mal e o sofrimento atingem o seu ponto mais “escandaloso” na cruz onde o próprio Deus e Homem Jesus Cristo o experimenta e suporta (carrega), como resultado do pecado cujas consequências são absorvidas n’Ele de modo a que satisfeita a justiça divina o Seu amor abre-nos as portas do perdão e à reconciliação sendo justificados, declarados justos.

           

            Nem sempre foi assim...

            Não será assim para sempre – “os sofrimentos do tempo presente não são para comparar com a glória por vir a ser revelada em nós” (Rm 8:18).

            A cruz mostra-nos um Deus que partilha o sofrimento do homem, que sofre por ele e com ele.

            O pecado e o sofrimento não se resolvem por decreto mas no amor em harmonia com a justiça, já que o pecado e o sofrimento resultam da negação e da dúvida desse amor e dessa justiça divinas.

            Deus não criou o homem como um robô.

            A criação do homem e da mulher implicou para Deus a certeza da cruz.

            Não que o homem tenha um erro de fabrico.

            Mas porque Deus na Sua omnisciência já sabia o que é que o acto da criação iria implicar...

            Mesmo assim criou... Ele sabe porquê... A eternidade irá confirmá-lo...

            Podemos confiar n’Ele diante da quadro da cruz...

 

            A lepra é uma ilustração de “sofrimento sem dor”, a triste realidade de quem vê o seu corpo sendo destruído sem sentir fisicamente e sem reacção a essa destruição.

            Pior do que a dor é a insensibilidade no plano físico, emocional e espiritual.

            A dor constitui-se assim num sistema de alerta e no megafone de Deus. A insensibilidade espiritual é uma tragédia ainda maior do que a insensibilidade física ou emocional que tanta miséria tem causado. Insensível o homem não se dá conta que está perdido. Insensível o homem revolta-se contra a acção salvadora consumada mediante a cruz.

           

            A influência da doutrina e do amor evangélico leva à acção para minimizar o sofrimento tanto no tratamento, nos cuidados paliativos como na partilha – “chorar com os que choram” (Rm 12:15).

           

            Vivemos entre o já e o ainda não, com uma forte expectativa relativamente ao futuro...

            Não nos conformemos... Mantenhamos viva a esperança...

 

            Algumas vezes a confissão pública acerca de Jesus Cristo como único Senhor e Salvador, implicou sofrimento.

            Outras vezes a acção de certos cristãos, genuínos ou não, originaram sofrimento... Deus saberá distinguir entre uns e outros, segundo a graça e a justiça.

 

            Fomos criados em amor e para o amor, porque Deus é amor e toda a História da Salvação é a perseguição do amor santo e justo de Deus para com a humanidade... Só a fé como confiança incondicional em Deus, só o relacionamento e intimidade, só a presença de Deus pode ajudar a suportar o sofrimento em muitas circunstâncias e situações.

 

 

Inteligência Espiritual Positiva...

            Será que se pode falar em inteligência espiritual?

            Em que é que ela pode consistir?

            Como é que se avalia?

            Em que se evidencia e manifesta?

            Quais são as pontes, os canais de comunicação entre ela e a inteligência cognitiva e emocional?

            Teremos três inteligências, ou mais? Ou apenas uma com várias dimensões, sendo que para facilidade de estudo se sistematiza e organiza desta ou doutra forma qualquer?

A Bíblia afirma que o homem nasce espiritualmente morto, sem vida espiritual, o que poderá querer dizer (ou de onde se pode inferir) que não possui inteligência espiritual (tem uma inteligência espiritual negativa ou insuficiente).

            A Bíblia fala do homem espiritual que entende, compreende e age de acordo com a revelação do Espírito; e fala também de levarmos todo o nosso pensamento à obediência de Cristo, renovarmos a nossa mente de forma a não seguirmos a corrente e do nosso culto espiritual como racional. (1 Co 1:18-31; 1 Co 2; 2 Co 10:4-6; Rm 12:1,2).

 

            Apontaria alguns sinais identificadores da inteligência espiritual positiva:

-         Reconhecimento das limitações humanas diante do natural e do sobrenatural.

-         Reconhecimento de que a matéria, a física, a energia, o biológico, o temporal não esgotam a dimensão humana.

-         Constatação de que o sentido e propósito da vida não se esgotam apenas no tempo, no físico, no material e no biológico.

-         Reflectir sobre a identidade de Jesus Cristo e sobre as Suas reivindicações e influência nestes dois últimos milénios.

-         Romper com a apatia e a indiferença espirituais e não buscar subterfúgios com desculpas fáceis.

-         Avaliar seriamente a essência da fé cristã (melhor dizendo, a pessoa de Jesus Cristo).

-         Reconhecer que só podemos saber acerca do espiritual a partir de Quem sabe e, quem sabe deve tê-lo demonstrado com a excelência (na perfeição). Só conheço um que responde aos critérios da perfeição na identidade, no discurso, na prática, nos relacionamentos, nas manifestações sobrenaturais, no sentido da vida e da morte, na ressurreição, nas propostas para o imediato terreno e na esperança eterna.

-         Cultivar o relacionamento e a intimidade com Deus na leitura do texto revelado, na oração, na comunhão com outros seguidores de Jesus.

 

Que traços de inteligência espiritual podemos divisar na pessoa de Jesus Cristo? É tarefa difícil conseguir expressá-los de uma forma sucinta porque segundo pensamos toda a Sua inteligência cognitiva e emocional está impregnada do espiritual. Toda a Sua vida só pode ser entendida a partir dessa dimensão. Até porque a Sua identidade é o ponto central de toda a Sua biografia entre nós. Destacaríamos entre outras:

-         A consciência da soberania (presença, direcção, provisão, cuidado) do Pai no mover do Espírito Santo.

-         A relação de intimidade permanente com o Pai.

-         A submissão contínua à orientação do Espírito Santo.

-         O valor absoluto conferido à pessoa humana.

-         A vida entendida como um todo integrado e harmonizado.

-         A existência projectada em termos de eternidade.

-         O respeito pela liberdade de escolha do ser humano.

-         A denúncia da hipocrisia e do legalismo religioso como caricatura do divino.

-         A afirmação categórica da esperança pelo arrependimento e pela conversão – é possível mudar, uma outra vida é possível, não há prisão ou algema que resista ao amor e ao perdão divinos.

-         A manifestação total da graça como “favor imerecido” face ao sistema do mérito, da competição, da conquista, da força, do comércio religioso, os relacionamentos não se compram nem se vendem, o amor não tem preço, os afectos não se comercializam.

-         A celebração da reconciliação com Deus pelo perdão oferecido graciosamente numa aceitação incondicional transformadora e libertadora.

 

O que sabemos pela revelação e pela experiência nutre a nossa inteligência espiritual e capacita-nos a viver cada vez mais segundo o pleno propósito de Deus, n’Ele e para Ele (em Sua soberania e suficiência).

            O que não sabemos... (“agnosticismo cristão”) fica para mais tarde, quando os mistérios forem desvendados na plenitude do amor. Acredito que uma vez diante de Deus todas as nossas perguntas e dúvidas se desvanecerão, porque a Sua plena presença em nós será de todo em todo suficiente.

 

A minha tese é que para lá da inteligência racional e emocional há também uma inteligência espiritual. Ela está aí espelhada em milhões de obras artísticas, literárias, religiosas, filosóficas e éticas desde as origens do homem, atravessando a Pré-História e a História, desde o Mundo Antigo até ao Mundo Moderno e Pós-moderno. Não é possível ignorar todos os vestígios que nos foram deixados pela presença e manifestação dessa inteligência.

A sua obra-prima é o Seu autor – Jesus Cristo (Criador e “Criatura”).

A construção da inteligência espiritual abandonada a si mesma não logra as suas competências e objectivos e afunda-se em contradições, em ilusões e mentiras, vítima do seu próprio erro de auto-suficiência e auto-deificação.

A inteligência espiritual precisa renascer, ressuscitar, surgir, despontar e aprender, crescer e desenvolver-se a partir d’Aquele que é espírito e que encarnou tornando-se visível e palpável. Pensar, penetrar, entender e perceber o espiritual só é possível pela “recuperação” espiritual do homem, o que Jesus chamou de “novo nascimento” (um nascimento espiritual).

A escola da inteligência espiritual (ser, saber e fazer) é aos pés do Mestre dos mestres (“o caminho, a verdade e a vida” – no Seu próprio auto-retrato), segundo a revelação bíblica. Uma aprendizagem antecedida por uma “nova criação” que não exclui as restantes facetas da inteligência, do conhecimento, da investigação e do estudo mas que as submete ao crivo da revelação, porque “toda a verdade é verdade de Deus” da arte à ciência, da teologia à filosofia.

A inteligência espiritual permeia e é dominante no racional e no emocional segundo a “mente de Cristo” e a Sua revelação bíblica.

Finalizo declarando que só um avivamento desta inteligência espiritual pode salvar o homem do século XXI da incerteza, da indeterminação, da instabilidade e da insegurança, do pluralismo e do relativismo, da crise ética, da insensibilidade, da indiferença e da apatia, da intolerância e das desigualdades. A responsabilidade é nossa como Igreja e como cristãos de Cristo buscando-o, priorizando-o e correspondendo às condições necessárias.

“Aviva a tua obra, ó Senhor, no decorrer dos anos, e no decurso dos anos faze-a conhecida (...)” (Hb 3:2).

”Não vem do Senhor dos Exércitos que as nações labutem para o fogo e os povos se fatiguem em vão? Pois a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar.” (Hb 2:13,14).

Que aproveita o ídolo, visto que o seu artífice o esculpiu? E a imagem de fundição, mestra de mentiras, para que o artífice confie na obra, fazendo ídolos mudos? Ai daquele que diz ao pau: Acorda! E à pedra muda: Desperta! Pode o ídolo ensinar? Eis que está coberto de ouro e de prata, mas no seu interior não há fôlego nenhum. O Senhor, porém, está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra.” (Hb 2:18-20).

 

Samuel R. Pinheiro

samuelpinheiro@mail.telepac.pt

samuelpinheiro@portalevangelico.pt