DEUS É AMOR

 

            Esta é a notícia mais alvissareira que o mundo pode ouvir. Como cristãos a nossa principal incumbência é (independentemente da aceitação ou da rejeição, da compreensão ou da dúvida, da fé na incredulidade ou da fé no esforço) passarmos à nossa geração a verdade do amor de Deus.

            Passados dois séculos da oferta suprema do amor divino, precisamos ainda de nos concentrarmos nesta tremenda verdade e deixar que ela permeie nossa mente, coração e vontade.

            Entretanto os próprios conteúdos do amor foram desvirtudados, distorcidos, pervertidos, contaminados, e hoje quando se fala em amor fala-se invariavelmente de sexo descartável, de romance, de paixão, de mero sentimentalismo, de prazer hedonista, de contacto físico. Isto é de tal forma grave e negativo que acabou-se por perder tanto uma como outra realidade. Confundindo amor com sexo, perdeu-se a sexualidade em toda a beleza que o Criador lhe consagrou, e o amor como ingrediente essencial do relacionamento.

            É em Deus que podemos conhecer o verdadeiro amor e começar a vivê-lo diariamente.

            Nenhuma descrição do amor genuíno consegue superar a que nos é oferecida pela carta dirigida pelo apóstolo Paulo à Igreja na cidade de Corinto, e que através destes dois milénios tem tocado e dado forma à vida de milhões de pessoas. Vale a pena citá-la por inteiro e dedicarmos alguns momentos para voltar a meditar profundamente no que ela nos diz, verificando em que medida estamos conscientes de ser esse precisamente o tipo de amor que Deus nos tem e que, na medida em que o experimentarmos, estaremos em condições de o dirigirmos para quantos nos rodeiam.

Para amarmos mais e melhor, precisamos de viver mais o amor que Deus nos tem. Quanto mais experimentarmos o Seu amor, melhor poderemos amar. Quanto menos experimentarmos e vivenciarmos o amor divino, menos amor teremos para comunicar ao próximo e até a nós mesmos. Quanto mais conhecermos o amor do Senhor, mais confiaremos, mais descansaremos, mais trabalharemos nesse e a partir desse descanso.

            “O amor é paciente e bondoso. Não é invejoso, nem orgulhoso; não é arrogante, nem grosseiro. O amor não exige que se faça o que ele quer. Não é irritadiço e dificilmente suspeita do mal que os outros lhe possam fazer. Nunca fica satisfeito com a injustiça, mas alegra-se com a verdade. O amor nunca desiste, nunca perde a fé, tem sempre esperança e persevera em todas as circunstâncias.” (1 Cor 13:4-7 – tradução de O Livro).

            Talvez por causa disso mesmo, Paulo ora pelos cristãos de Éfeso para que eles possam aprofundar-se nesse amor. Esta é também uma oração perfeitamente actual para os dias que vivemos, quando corremos o risco de vermos o amor de muitos esfriar. Recordemos a oração do apóstolo: “E o pedido que lhe faço é que, segundo os seus recursos gloriosos, vos fortaleça poderosamente no vosso interior pelo seu Espírito; e que Cristo, devido à vossa fé nele, habite cada vez mais nos vossos corações. E então, bem estabelecidos, bem enraizados, no terreno do amor de Deus, poderão, em comunhão com todos os outros crentes, compreender com clareza tudo o que representa o amor de Cristo para convosco, em toda a sua dimensão: a sua extensão, profundidade, vastidão, enfim, a sua altura celestial. Que possam experimentar esse amor, ainda que ele ultrapasse toda a compreensão. E assim ficarão cheios de toda a plenitude da presença de Deus.” (Ef 3:16-19 – tradução de O Livro).

            É de referir a tremenda mudança que este amor produziu na vida do escritor quando, antes do seu encontro com Cristo e da Sua maravilhosa graça, era um feroz perseguidor da Igreja, pensando estar com isso a prestar um serviço a Deus. O conceito  que se faz do Senhor afecta profundamente a maneira como vivemos. Mas ainda mais do que a ideia, é decisiva a experiência da bondade divina. O amor de Jesus mudou o perseguidor em perseguido, o intolerante no tolerante que não escondia ou negava a verdade, mesmo à custa da incompreensão e dos maus tratos. Quando compreendemos que somos amados e aceites, independentemente dos nossos esforços e desempenho, somos livres para agir em amor. Não há maior verdade do que a do amor de Deus por nós pecadores, perdidos, rebeldes, arrogantes, orgulhosos, egoístas, empertigados e com a mania da auto-suficiência. Obedecemos não para sermos amados, mas porque somos amados e assim expressamos o nosso amor.

Nunca poderemos fazer com que o Criador nos ame mais do que nos ama. Julgo que quanto mais nos esforçamos por merecer o Seu amor, menos o experimentamos. O amor de Deus não sofre variação, nem mudança. O Senhor amou-nos, ama-nos e amar-nos-á sempre da mesma forma, com a mesma qualidade e com o mesmo tamanho. Nada altera o amor de Deus, porque Ele é amor.

            O Criador ama de igual modo o impenitente pecador que caminha a passos largos para o Inferno, como um pecador arrependido e convertido que, pela graça, entra nos lugares celestiais. Não é por falta do amor divino que alguém vai para o Inferno, não é pelos seus méritos ou virtudes que alguém terá acesso às moradas celestiais.

            Os mandamentos que o Supremo Legislador nos outorgou na Sua palavra são uma prova do Seu amor. Se Deus não nos amasse de verdade, deixaria que andássemos de qualquer maneira e nos destruíssemos na nossa ignorância e insensatez.

            As consequências que advêm da nossa desobediência são ainda uma manifestação do amor que o Senhor nos tem, de modo a que O ouçamos e nos arrependamos e convertamos dos nossos maus caminhos.

            A eternidade de separação de Deus pode ser ainda analisada a partir do Seu amor que nunca por nunca ser imporá a quem quer que seja a Sua vontade. O amor não se impõe. O amor autêntico não oprime nem escraviza.

            A ira divina é uma manifestação do amor de Deus. Quem ama não pode ficar indiferente ao que destrói o sujeito do Seu amor. Se é verdade, porém, que Deus detesta o pecado que arruina o pecador, não é menos verdade que, ao amar o pecador, também sobre ele permanece a ira divina enquanto não se arrepende. Não é apenas o pecado alvo do julgamento de Deus, quem o pratica também. Quando Deus reprova o pecador é porque o ama. Quando Deus permite as consequências do pecado é porque ama o pecador.

Por difícil que seja entendermos o sofrimento acaba por reforçar o amor do Senhor do Universo. Na eternidade perceberemos que até a mais profunda deficiência é alvo do mais intrínseco amor de Deus. O fruto mais contorcido pelo pecado tem no amor divino a mesma oportunidade.

            Num século de fundamentalismos e legalismos é importante que nos voltemos para a revelação maravilhosa do amor de Deus e que nos impregnemos dela.

            É preciso que se saiba que nós O amamos porque Ele nos amou primeiro.

            A mensagem do Natal é esta: “Deus amou tanto o mundo que deu o seu único Filho para que todo aquele que nele crê não se perca espiritualmente, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3:16 – tradução de O Livro).

 

Samuel R. Pinheiro