DESAFIOS DA CONTEMPORANEIDADE

ÀS RELIGIÕES

 

Desafios ao Mundo Evangélico

 

INTRODUÇÃO

Quero antes de tudo o mais agradecer o convite que me foi feito para participar na abertura deste ciclo de painéis, de reflexão, diálogo e debate, sobre os Desafios da Contemporaneidade às Religiões e dar os meus parabéns aos organizadores pela escolha da temática que considero extremamente pertinente.

Ainda em termos de introdução gostaria de ressaltar que a nossa contemporaneidade é extremamente heterogénea e confusa, sujeita a mudanças vertiginosas e avassaladoras. Pensando apenas no nosso contexto português creio que todos concordamos que vivemos numa realidade em que tanto a pré-modernidade, como a modernidade e a pós-modernidade estão presentes e não são estanques. Por outro lado a velocidade a que se processam as mudanças e aquelas que foram certamente abertas com os resultados do recente referendo (11.2.2007) sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, torna difícil uma radiografia da contemporaneidade. Não é fácil pois seleccionar os desafios que nos são colocados, sistematizar cada um deles e apontar algumas linhas de acção.

Decidimos dividir a apresentação em três partes que consideramos igualmente significativas no contexto do tema que nos foi proposto e que aqui nos trás para reflexão: os desafios que a contemporaneidade nos coloca como comunidade evangélica, o que eles implicam na postura da mesma e os desafios que ela tem a apresentar à contemporaneidade. Julgo que cada uma destas leituras é indispensável no entendimento global do assunto. Se é verdade que a contemporaneidade nos coloca desafios que não podemos ignorar se queremos ser relevantes e ter capacidade de interacção e comunicação com a nossa sociedade, também não é menos verdade que a comunidade evangélica tem desafios que a contemporaneidade não pode ignorar nas estruturas e instituições que a enformam. A Comissão da Liberdade Religiosa realizou no passado mês de Março, dias 16 e 17, o seu II Colóquio subordinado ao tema A Religião Fora dos Templos. No meu entender é precisamente aqui, fora dos templos, que a presença e a acção evangélica faz sentido. Os meios de comunicação social, a educação, a investigação científica, as decisões políticas, as intervenções sociais, os modelos de desenvolvimento, os projectos culturais, não podem ser alheios à realidade religiosa.

 

OS DESAFIOS DA CONTEMPORANEIDADE

            Começando pelos desafios colocados pela contemporaneidade ressalto entre muitos outros que poderíamos inventariar: a SECULARIZAÇÃO, o PLURALISMO RELIGIOSO e o RELATIVISMO ÉTICO.

 

Secularização

            A secularização consiste, no nosso entender, num processo de empurrar a dimensão espiritual e o que dela decorre para o foro íntimo do indivíduo, para a sua privacidade, retirando-lhe a legitimidade de se expressar e de se viver na praça pública, no dia-a-dia das questões sociais, culturais, políticas, económicas, morais e éticas, académicas, científicas e filosóficas.

            As estatísticas revelam que tanto em Portugal como na Europa a percentagem dos cidadãos que se consideram religiosos é largamente maioritária. No entanto constata-se que a vivência do quotidiano é feita muitas das vezes sem uma referência articulada, conjugada, integrada e harmonizada com a fé.

            A fé cristã só faz sentido nas implicações que encerra para com a realidade qualquer que ela seja. Um cristianismo não praticante é em si mesmo contraditório. Uma prática cristã limitada às celebrações litúrgicas também não corresponde à sua essência. Só é possível viver o cristianismo no todo da vida humana, tanto no privado como no público, na família como na profissão, nos relacionamentos pessoais como na política. Nancey Pearcey, no livro Verdade Absoluta, citando dois pensadores cristãos evangélicos, um do século XIX e outro do século XX, refere a este respeito:

“O evangelho é como um leão enjaulado”, disse o grande pregador baptista Charles Spurgeon. “Não precisamos defendê-lo, só precisamos deixar que saia da jaula.” Hoje, a jaula é nossa acomodação à divisão secular/sagrado que reduz o cristianismo a questão de crença pessoal e particular. Para destrancarmos a jaula, precisamos nos convencer de que, como disse Francis Schaeffer, o cristianismo não é mera verdade religiosa, mas a verdade total – a verdade sobre a totalidade da realidade. (Verdade Absoluta, Nancy Pearcey, Editora CPAD, Rio de Janeiro, 2006, pp. 20)

            A mesma autora, servindo-se de outra citação, refere um pouco mais adiante:

Todos concordamos com Dorothy Sayers que disse que se a religião não fala com nossa vida de trabalho, então não tem nada a dizer sobre o que fazemos a maior parte do tempo; portanto, não admira que as pessoas digam que a religião é irrelevante! “Como alguém pode permanecer interessado numa religião que não se interessa com 90% da vida?” (Verdade Absoluta, Nancy Pearcey, Editora CPAD, Rio de Janeiro, 2006, pp. 39)

É verdade que a experiência cristã é pessoal e individual. Cada indivíduo é chamado a relacionar-se pessoalmente com o seu Criador, mas essa vivência traduz-se em todo e qualquer aspecto da sua existência.

            É verdade que o cristianismo evangélico não é um programa político nem pode impor-se por via legislativa. Aquilo que algumas vezes se chama de cultura cristã mais não é do que uma negação do próprio cristianismo. Dizer-se que vivemos num país cristão acaba por muitas vezes comprometer seriamente o sentido do que significa ser cristão. Mesmo assim existe um mandato cultural no cristianismo que passa pela vivência de cada cristão e pelo seu entendimento do modo como a sociedade se deve organizar e estruturar. Neste contexto o movimento evangélico como um todo e os cristãos evangélicos individualmente, como cidadãos de corpo inteiro, não podem demitir-se nem aceitar serem excluídos do debate de temas como o ensino da sexualidade nas escolas públicas, ou do criacionismo e do evolucionismo nos currículos do ensino oficial em qualquer um dos graus de ensino. A motivação deve estar centrada no contributo para a saúde e o bem-estar, bem como para a descoberta e afirmação da verdade acerca das nossas origens e do que elas representam na forma como vivemos toda a nossa vida e nos posicionamos face à eternidade.

            Pessoalmente considero que tanto diante da secularização como do nominalismo religioso, das espiritualidades místicas como do legalismo religioso, é indispensável que “o novo nascimento” proposto por Jesus Cristo como única possibilidade de fazer parte do Reino de Deus seja evidenciado.

            Se por um lado não podemos escamotear o chamado mandato cultural que o evangelho encerra e que se traduz na presença no mundo das artes, da literatura, da filosofia, da ciência, da política, da economia; não podemos deixar de apontar tudo isso para a origem e para a raiz de onde tudo procede e brota, e sem a qual não existe genuína experiência e vida cristã.

Na área académica o secularismo manifesta-se através de uma postura naturalista que exclui à partida qualquer hipótese de referência ao divino, à inteligência suprema e ao sobrenatural. Os pressupostos desta postura condicionam a filosofia da ciência e determinam e sustentam a investigação e a compreensão dos factos e dos fenómenos principalmente quando eles abordam questões como a origem do universo, da vida, e da existência humana; quando se pronunciam sobre os milagres e toda e qualquer afloramento do sobrenatural.

            O Prof. Dr. Jónatas Machado recentemente numa conferência na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (21.3.2007), cujo texto pode ser consultado no Portal Evangélico (www.portalevangelico.pt) sobre o tema geral Evolucionismo v. Criacionismo, a que deu o título O Paradigma do Naturalismo, referia na introdução:

Homens como Lyell, Comte, Darwin, Huxley, Haeckel, Mayr, Sagan, Lewontin, Gould, Eldredge, Dawkins, Dennett, Pinker, Hawking, etc., têm sustentado que toda a ciência tem necessariamente que ser naturalista, isto é, tem que excluir liminarmente qualquer possibilidade de causas sobrenaturais. Estes e outros cientistas decretaram que no Universo não há qualquer lugar para Deus e para a análise dos efeitos da sua acção. Para eles, o facto de essa ser a sua profunda convicção filosófica e ideológica é razão mais do que suficiente para que todos aceitem doravante essa determinação e construam a ciência de acordo com ela. A verdadeira ciência, dizem, só pode ser naturalista. A mesma só pode investigar as relações de causa efeito entre matéria e energia, no tempo e no espaço.

Quem pretender afirmar algo diferente não pode ser cientista. Quem ousar defender que existem efeitos naturais inexplicáveis unicamente por causas físicas naturais está irremediavelmente condenado a permanecer fora da ciência. Note-se, porém, que este tipo de naturalismo não é totalmente neutro, do ponto de vista ideológico. O mesmo toma um partido bem definido relativamente à questão da “natureza da natureza”, na medida em que tem subjacente uma compreensão estritamente física e materialista da natureza, excluindo a possibilidade de a natureza conter uma dimensão imaterial (v.g. informação, estrutura matemática ou computacional), para além da matéria e da energia. É que, por si só, a existência de informação ou de uma estrutura matemática remete imediatamente para a possibilidade de uma causalidade inteligente. Sucede que este entendimento, longe de promover a objectividade e o pensamento crítico na ciência, como pretendem os naturalistas, é a “mãe de todas as tautologias”.

            Esta tendência exige da parte da comunidade evangélica um empenhamento cada vez maior na reflexão e no questionamento de uma certa contemporaneidade e dos seus pressupostos, apontando as consequências que daí derivam tanto éticas como espirituais, nas relações sociais, na identidade do homem e no seu projecto de vida. Uma sociedade e uma cultura materialista na qual o homem é visto mais como objecto ou máquina do que como pessoa, arrasta a humanidade para insensibilidade e a indiferença e é geradora de morte. O amor, o altruísmo e a solidariedade estão para lá das reacções químicas.

            “Uma razão que crê e uma fé que pensa” é o mote de uma relação complementar entre a razão e a revelação, entre a ciência e a fé. Quando o humanismo significa o homem preso dentro de si próprio e acorrentado aos seus próprios horizontes, há muito que fica por alcançar pela razão e pelo coração.

 

Pluralismo religioso

            O pluralismo religioso é um dado adquirido na sociedade contemporânea. De alguma forma podemos dizer que o cristianismo nasceu por um lado no seio de uma cultura religiosa restrita no contexto judaico e por outro em meio ao pluralismo da cultura romana que nem sempre teve a capacidade suficiente de integrar e lidar, de modo tolerante, com os conteúdos do evangelho de Jesus Cristo. Existe nos vários momentos da história da Igreja cristã, para não dizer em todos eles, uma igreja perseguida, marginalizada e maltratada.

            Não podemos ignorar que a história do cristianismo também tem sido feita com uma associação e conivência com o poder instituído e lançando mão da perseguição, da força e da violência para impor as suas ideias. Existe também uma Igreja enfeudada ao poder estabelecido, quando não mesmo sendo a alavanca e o sustentáculo dos privilégios fomentados. Esta é a face da moeda que normalmente os críticos preferem e exploram com alguma razão, mas perdendo-a quando ignoram a outra face e quando escamoteiam a violência perpetrada pelas ideologias tidas como não religiosas, ateias e laicistas.

            Diante do pluralismo religioso o evangelho afirma a singularidade e a exclusividade de Jesus Cristo como único Mediador entre Deus e os homens, como Emanuel – Deus connosco, como o Verbo – Logos divino. É aqui que se articula a essência evangélica assumindo por um lado o respeito absoluto por toda e qualquer expressão do religioso e do espiritual e, por outro, a afirmação gentil e mansa da convicção absoluta de que diante de Jesus Cristo estamos perante o próprio Deus entre nós. Tanto uma como outra postura fazem parte da identidade evangélica e sem qualquer delas não é possível assumi-la, dar-lhe expressão e vivê-la.

            Muitas vezes o pluralismo religioso é tido como incompatível com a apresentação e defesa das diferenças e do debate claro e transparente das ideias, resvalando-se para o sincretismo ou para frases feitas como “a religião não se discute”, “cada um tem a sua fé”, “isso é proselitismo e fundamentalismo”, etc. Considero que só há verdadeira tolerância em liberdade quando não se tem qualquer receio de debater, discutir, confrontar ideias e argumentos. Porque razão o religioso há-de ser entendido e percebido de forma diferente do científico e do político, em que o debate de ideias e de propostas é essencial ao conhecimento e à democracia?

            Não podemos abordar a questão do pluralismo religioso sem uma referência explícita ao fundamentalismo, até porque nos meios de comunicação vários comentadores e analistas têm identificado e caracterizado o movimento evangélico como tal. Enquanto o fundamentalismo foi usado para designar um movimento de retorno às raízes bíblicas da tradição cristã em contraposição ao liberalismo teológico (o que raramente aconteceu) a designação não nos causava qualquer tipo de embaraço ou mal-estar. A partir do momento em que ele surge associado ao terrorismo, as coisas mudam de figura. Confesso que algumas vezes considero que o uso do termo é feito por má-fé mais do que por ignorância, na medida em que, mesmo em estudos académicos, não são feitas as devidas destrinças históricas. Se é responsabilidade da comunidade evangélica elucidar acerca do assunto, na maior parte dos casos o acesso aos meios não lhes é proporcionado ou, melhor dizendo, é-lhes vedado.

 

Relativismo ético

            Vivemos um tempo em que os valores éticos deixaram de ser considerados universais, imutáveis e eternos. Do aborto à eutanásia, da pedofilia à homossexualidade, lidamos hoje em dia com profundas alterações aos valores milenares em que assentou a nossa cultura. O avanço da ciência em questões como a manipulação genética e a clonagem trazem-nos novas situações às quais é preciso dar resposta tendo em consideração a ética cristã. Muitas vezes a rapidez com que se exige uma decisão e a acusação de que a fé se opõe ao desenvolvimento científico dificultam o diálogo construtivo.

            Uma vez mais o evangelho exige de nós uma postura de compreensão e aceitação das pessoas quaisquer que sejam as suas opções e orientações, sem contudo deixar de afirmar, acima de tudo pelas atitudes e comportamentos, os valores e princípios em que acreditamos porque consideramos que estão sediados e emanam do carácter de Deus.

            Temos diante de nós o desafio que encontramos personificado na pessoa de Jesus Cristo que sendo sem qualquer defeito ou pecado, atraía a si, convivia e era acusado pelos religiosos legalistas de “amigo de pecadores e publicanos”.

Nancey Pearcey no livro já referenciado regista como a fé é determinante no modo como entendemos o comportamento e os valores que o sustentam em contraposição a outras perspectivas que partem de cosmovisões distintas:

Os marxistas afirmam que, no final das contas, o comportamento humano é moldado pelas circunstâncias económicas; os freudianos atribuem tudo a instintos sexuais reprimidos; e os psicólogos comportamentais encaram os seres humanos pela óptica de mecanismos de estímulo-resposta. Todavia, a Bíblia ensina que o factor dominante nas escolhas que fazemos é nossa crença suprema ou compromisso religioso. Nossa vida é talhada pelo “deus” que adoramos – quer o Deus da Bíblia quer outra deidade substituta. (Verdade Absoluta, Nancy Pearcey, Editora CPAD, Rio de Janeiro, 2006, pp. 26)

O desafio consiste em mostrar pela argumentação e pela prática a validade dos pressupostos cristão no comportamento e nas decisões.

Não podemos deixar de aqui fazer uma referência aos problemas diante dos quais a humanidade hoje está colocada, como são os casos das armas de destruição maciça e a destruição do meio ambiente que nos remete para cenários catastróficos, requerem uma acção concertada embora muitas vezes sem a percepção clara de como se pode efectivamente intervir e com a impressão de que as esferas decisoras estão para lá da capacidade individual de influência e intervenção.

Outras questões importantes no domínio ético prendem-se com a reflexão sobre a liberdade de expressão quando está em causa a pornografia, a violência gratuita em programas de televisão ou a corrosão da imagem da família tradicional.

São também temas incontornáveis que carecem de uma continua intervenção da Igreja a desigualdade social que se verifica a nível global e nacional. O papel das Igrejas e das organizações e instituições a ela ligadas que desenvolvem todo um trabalho de apoio aos mais desfavorecidos é de uma dimensão que não está devidamente avaliada, mas da qual as sociedades e os Estados não podem prescindir.

 

OS DESAFIOS POR DENTRO DA COMUNIDADE EVANGÉLICA

            Para lidar com cada um destes desafios as Igrejas evangélicas necessitam no meu entender de considerar três aspectos fundamentais da sua essência.

 

“Ouça o Espírito Ouça o Mundo”

            O teólogo inglês John Stott traduziu de uma forma muito sintética e objectiva a postura que como evangélicos devemos assumir no título de uma das suas obras: “Ouça o Espírito Ouça o Mundo”. Ele mesmo é um exemplo dessa atitude. A dado passo do seu livro refere:

(...) somos chamados ouvir em dobro, ou seja, ouvir tanto a Palavra quanto o mundo. É um truísmo dizer que precisamos ouvir a Palavra de Deus, a não ser, talvez, que precisamos ouvir a ele com mais atenção e humildade, prontos para deixá-lo confrontar-nos com uma palavra inquietante e inesperada. (John Stott, Ouça o Espírito Ouça o Mundo, Editora ABU, pp. 29)

 

            Ouvimos o Espírito principalmente através dos textos inspirados da Bíblia Sagrada como inerrante Palavra de Deus, sempre actual e pertinente em cada época e em cada momento, para cada uma das realidades que a humanidade em geral e o homem em particular enfrentam. Senão soubermos escutar com a devida atenção o que Deus nos diz, não teremos possibilidade de propor à nossa geração a mesma atitude de escuta e de reflexão. Antes de falar temos de saber ouvir.

            A leitura, reflexão e interpretação da Bíblia são para a comunidade evangélica decisivas na aceitação da sua inspiração verbal e da sua inerrância. Consideramos que o próprio Deus nos fala na nossa língua, de modo a que o ouçamos e entendamos.

            Para comunicarmos precisamos compreender as realidades, os desafios, os medos e os sonhos do mundo em que vivemos. Daí também a necessidade de escutarmos com toda a atenção as vozes do mundo que nos rodeia.

O conhecimento académico nas áreas da história e da arqueologia, da exegese e da hermenêutica, da astrofísica e da biologia, requerem uma atitude aberta e receptiva de diálogo e confronto de ideias.

O diálogo com a cultura ou com as culturas é um desafio que tem atravessado as eras e que continua na ordem do dia. Bem como o diálogo com as diferentes religiões e com a ciência. As tensões e as rupturas do passado não nos podem inibir antes estimular na sua continuidade. Não esperamos estar sempre de acordo, mas lidar com naturalidade com as diferenças de opinião quando se parte de pressuposições distintas, confrontando-as e sujeitando-as continuamente ao escrutínio da revelação e da razão.

 

Apologética

            A apologética cristã tem sido uma componente da reflexão crítica da fé diante das realidades culturais de cada época.

            A literatura evangélica está recheada de obras que desafiam o pensamento para a cosmovisão cristã em cada época. Da pré-modernidade, à modernidade e à pós-modernidade a mente cristã produziu um vasto espólio de reflexão, na explicação e na defesa dos fundamentos da fé bíblica.

            A apologética cristã desenvolve-se em três níveis fundamentais: no que diz respeito aos conteúdos da própria fé cristã tanto no plano doutrinário como no ético, no confronto com a heterodoxia e no diálogo com as religiões.

            A contemporaneidade exige da parte da Igreja no século XXI como no século I, no berço da Igreja cristã, um trabalho metódico e rigoroso no sentido de apresentar e explicar de forma acessível, a quem está interessado, a essência da fé cristã, sem subverter e adulterar os seus conteúdos bíblicos.

            Incluo neste ponto a necessidade da utilização dos meios mais adequados e da linguagem apropriada para dar a conhecer o pensamento cristão evangélico.

 

Vivência

            Se a capacidade de ouvir e de falar numa linguagem em que sejamos efectivamente compreendidos é decisiva face aos desafios que a contemporaneidade nos coloca, a vivência dos valores cristãos de amor, perdão e serviço, é o ponto essencial da resposta evangélica.

            Os melhores argumentos perante a secularização, o pluralismo religioso e o relativismo ético são os que se prendem com a vida. Nem sempre Jesus discutiu com os Seus contemporâneos de há dois mil anos as razões da Sua identidade e do Seu ensino. Algumas vezes Jesus limitou-se a convidar os cansados e sobrecarregados a chegarem-se a Ele e serem aliviados, aprenderem d’Ele e encontrarem descanso. O evangelho aponta para uma experiência pessoal com o próprio Cristo. Antes de ser um corpo de doutrinas e um articulado de valores éticos, o cristianismo é um relacionamento pessoal com um Cristo vivo.

            É por isso que perante a contemporaneidade nos sentimos compelidos a apresentar a pessoa de Jesus tal e qual nos é apresentada nos evangelhos. Para nós o Cristo da fé tem que corresponder ao Cristo histórico, ou seja o Cristo da fé é o mesma da história. O relato dos evangelhos é para nós totalmente fidedigno e tem que ser liberto de todos os modismos a que o pretendam prender.

 

OS DESAFIOS DO CRISTIANISMO EVANGÉLICO PARA A CONTEMPORANEIDADE

            Diante de uma cultura contemporânea amarrada pelo materialismo e pelo naturalismo em que o homem surge como produto do acaso, vindo do nada e a caminho do nada, sem propósito e sem desígnio, como “uma encomenda postal da parteira para o coveiro”; prisioneiro do prazer a qualquer preço em que prevalece o “comamos e bebamos que amanhã morreremos”; sozinho e entregue a si mesmo sem qualquer resposta do exterior às suas mais íntimas questões e ansiedades.

            Ou de uma cultura também contemporânea em que o espiritual se resume ao formalismo religioso traduzido por um conjunto de liturgias.

            Ou de uma cultura contemporânea em que a espiritualidade propõe a fé na fé.

            Os evangélicos e as igrejas evangélicas têm, através da Bíblia Sagrada, um desafio a propor consagrado numa cosmovisão cristã tanto ao pensamento quanto ao estilo de vida, tanto ao tempo quanto ao futuro e à eternidade, tanto ao físico quanto ao espiritual e que se pode traduzir e sintetizar em três afirmações principais que podem ser expressas por tês palavras-chave  CRIAÇÃO, QUEDA E REDENÇÃO.

 

Criação: Como tudo começou? De onde viemos?

            - No princípio Deus criou os céus e a terra e o homem à Sua imagem e semelhança como um ser livre e responsável. A explicação do como nunca substituirá a realidade do Quem, do porquê e do para quê.

 

Queda: O que deu errado? Qual a fonte do mal e do sofrimento?

            - Na sua liberdade o homem decidiu levar por diante o seu próprio projecto, viver a vida à sua própria maneira, decidir por si mesmo o certo e o errado, emancipar-se de Deus e governar-se a si mesmo. A Bíblia não apresenta um homem em evolução, mas um homem decaído da sua vocação original. Apesar disso confere ao homem uma dignidade que não pode ser superada e um destino que não pode ser comprometido.

 

Redenção: O que fazer a esse respeito? Como consertar o mundo?

 

            - Deus não desistiu do homem e de modo pedagógico ao longo da história e em Jesus Cristo consumou o plano da reconciliação dando a conhecer Quem de facto é e o que o homem pode ser n’Ele. A restauração do homem à sua vocação original, entretanto elevado à condição de filho de Deus, é pela graça e não pelas obras, pelos méritos ou por virtudes especiais. É o âmago do evangelho que a Bíblia traduz pela palavra graça. A graça é o favor divino. Este é o distintivo do cristianismo. Não é o esforço humano que conquista Deus e a bem-aventurança. A relação com Deus é restaurada pela dádiva imerecida. Não há mensagem mais revolucionária para uma sociedade assente na competição, na selecção natural e no poder do mais forte.

 

CONCLUSÃO

            A terminar podemos igualmente afirmar que os desafios da contemporaneidade às igrejas evangélicas radicam nos três pilares que tornaram o movimento da reforma protestante um movimento de ruptura com o obscurantismo, a prepotência religiosa e política, e a corrupção. Sola Scriptura – Sola Gracia – Sola Fide. Somente a Escritura – Somente a Graça – Somente a Fé.

            Um outro princípio da Reforma apontava para uma reforma sempre em reforma, o que é hoje um desafio da fé e para a fé evangélica, da contemporaneidade e para a contemporaneidade.

 

Samuel R. Pinheiro

www.samuelpinheiro.com