DESAFIOS
DA CONTEMPORANEIDADE
ÀS
RELIGIÕES
Desafios
ao Mundo Evangélico
INTRODUÇÃO
Quero antes de tudo o mais agradecer o
convite que me foi feito para participar na abertura deste ciclo de painéis, de
reflexão, diálogo e debate, sobre os Desafios
da Contemporaneidade às Religiões e dar os meus parabéns aos
organizadores pela escolha da temática que considero extremamente pertinente.
Ainda em termos de introdução gostaria de
ressaltar que a nossa contemporaneidade é extremamente heterogénea e confusa,
sujeita a mudanças vertiginosas e avassaladoras. Pensando apenas no nosso
contexto português creio que todos concordamos que vivemos numa realidade em
que tanto a pré-modernidade, como a modernidade e a pós-modernidade estão
presentes e não são estanques. Por outro lado a velocidade a que se processam
as mudanças e aquelas que foram certamente abertas com os resultados do recente
referendo (11.2.2007) sobre a despenalização
da interrupção voluntária da gravidez, torna difícil uma radiografia da
contemporaneidade. Não é fácil pois seleccionar os desafios que nos são
colocados, sistematizar cada um deles e apontar algumas linhas de acção.
Decidimos dividir a apresentação em três
partes que consideramos igualmente significativas no contexto do tema que nos
foi proposto e que aqui nos trás para reflexão: os desafios que a
contemporaneidade nos coloca como comunidade evangélica, o que eles implicam na
postura da mesma e os desafios que ela tem a apresentar à contemporaneidade.
Julgo que cada uma destas leituras é indispensável no entendimento global do
assunto. Se é verdade que a contemporaneidade nos coloca desafios que não
podemos ignorar se queremos ser relevantes e ter capacidade de interacção e
comunicação com a nossa sociedade, também não é menos verdade que a
comunidade evangélica tem desafios que a contemporaneidade não pode ignorar
nas estruturas e instituições que a enformam. A Comissão da Liberdade
Religiosa realizou no passado mês de Março, dias 16 e 17, o seu II Colóquio
subordinado ao tema A Religião Fora dos
Templos. No meu entender é precisamente aqui, fora dos templos, que a
presença e a acção evangélica faz sentido. Os meios de comunicação social,
a educação, a investigação científica, as decisões políticas, as intervenções
sociais, os modelos de desenvolvimento, os projectos culturais, não podem ser
alheios à realidade religiosa.
OS
DESAFIOS DA CONTEMPORANEIDADE
Começando pelos desafios colocados pela contemporaneidade ressalto entre
muitos outros que poderíamos inventariar: a SECULARIZAÇÃO,
o PLURALISMO RELIGIOSO e o RELATIVISMO
ÉTICO.
Secularização
A secularização consiste, no nosso entender, num processo de empurrar a
dimensão espiritual e o que dela decorre para o foro íntimo do indivíduo,
para a sua privacidade, retirando-lhe a legitimidade de se expressar e de se
viver na praça pública, no dia-a-dia das questões sociais, culturais, políticas,
económicas, morais e éticas, académicas, científicas e filosóficas.
As estatísticas revelam que tanto em Portugal como na Europa a
percentagem dos cidadãos que se consideram religiosos é largamente maioritária.
No entanto constata-se que a vivência do quotidiano é feita muitas das vezes
sem uma referência articulada, conjugada, integrada e harmonizada com a fé.
A fé cristã só faz sentido nas implicações que encerra para com a
realidade qualquer que ela seja. Um cristianismo não praticante é em si mesmo
contraditório. Uma prática cristã limitada às celebrações litúrgicas também
não corresponde à sua essência. Só é possível viver o cristianismo no todo
da vida humana, tanto no privado como no público, na família como na profissão,
nos relacionamentos pessoais como na política. Nancey Pearcey, no livro Verdade
Absoluta, citando dois pensadores cristãos evangélicos, um do século XIX
e outro do século XX, refere a este respeito:
“O evangelho é como um leão
enjaulado”, disse o grande pregador baptista Charles Spurgeon. “Não
precisamos defendê-lo, só precisamos deixar que saia da jaula.” Hoje, a
jaula é nossa acomodação à divisão secular/sagrado que reduz o cristianismo
a questão de crença pessoal e particular. Para destrancarmos a jaula,
precisamos nos convencer de que, como disse Francis Schaeffer, o cristianismo não
é mera verdade religiosa, mas a verdade total – a verdade sobre a totalidade
da realidade. (Verdade Absoluta, Nancy Pearcey, Editora CPAD, Rio de Janeiro,
2006, pp. 20)
A mesma autora, servindo-se de outra citação, refere um pouco mais
adiante:
Todos concordamos com Dorothy Sayers que
disse que se a religião não fala com nossa vida de trabalho, então não tem
nada a dizer sobre o que fazemos a maior parte do tempo; portanto, não admira
que as pessoas digam que a religião é irrelevante! “Como alguém pode
permanecer interessado numa religião que não se interessa com 90% da vida?”
(Verdade Absoluta, Nancy Pearcey, Editora CPAD, Rio de Janeiro, 2006, pp. 39)
É verdade que a experiência cristã é
pessoal e individual. Cada indivíduo é chamado a relacionar-se pessoalmente
com o seu Criador, mas essa vivência traduz-se em todo e qualquer aspecto da
sua existência.
É verdade que o cristianismo evangélico não é um programa político
nem pode impor-se por via legislativa. Aquilo que algumas vezes se chama de
cultura cristã mais não é do que uma negação do próprio cristianismo.
Dizer-se que vivemos num país cristão acaba por muitas vezes comprometer
seriamente o sentido do que significa ser cristão. Mesmo assim existe um
mandato cultural no cristianismo que passa pela vivência de cada cristão e
pelo seu entendimento do modo como a sociedade se deve organizar e estruturar.
Neste contexto o movimento evangélico como um todo e os cristãos evangélicos
individualmente, como cidadãos de corpo inteiro, não podem demitir-se nem
aceitar serem excluídos do debate de temas como o ensino da sexualidade nas
escolas públicas, ou do criacionismo e do evolucionismo nos currículos do
ensino oficial em qualquer um dos graus de ensino. A motivação deve estar
centrada no contributo para a saúde e o bem-estar, bem como para a descoberta e
afirmação da verdade acerca das nossas origens e do que elas representam na
forma como vivemos toda a nossa vida e nos posicionamos face à eternidade.
Pessoalmente considero que tanto diante da secularização como do
nominalismo religioso, das espiritualidades místicas como do legalismo
religioso, é indispensável que “o novo nascimento” proposto por Jesus
Cristo como única possibilidade de fazer parte do Reino de Deus seja
evidenciado.
Se por um lado não podemos escamotear o chamado mandato cultural que o
evangelho encerra e que se traduz na presença no mundo das artes, da
literatura, da filosofia, da ciência, da política, da economia; não podemos
deixar de apontar tudo isso para a origem e para a raiz de onde tudo procede e
brota, e sem a qual não existe genuína experiência e vida cristã.
Na área académica o secularismo
manifesta-se através de uma postura naturalista que exclui à partida qualquer
hipótese de referência ao divino, à inteligência suprema e ao sobrenatural.
Os pressupostos desta postura condicionam a filosofia da ciência e determinam e
sustentam a investigação e a compreensão dos factos e dos fenómenos
principalmente quando eles abordam questões como a origem do universo, da vida,
e da existência humana; quando se pronunciam sobre os milagres e toda e
qualquer afloramento do sobrenatural.
O Prof. Dr. Jónatas Machado recentemente numa conferência na Faculdade
de Ciências da Universidade de Lisboa (21.3.2007), cujo texto pode ser
consultado no Portal Evangélico (www.portalevangelico.pt)
sobre o tema geral Evolucionismo v.
Criacionismo, a que deu o título O
Paradigma do Naturalismo, referia na introdução:
Homens como Lyell, Comte, Darwin,
Huxley, Haeckel, Mayr, Sagan, Lewontin, Gould, Eldredge, Dawkins, Dennett,
Pinker, Hawking, etc., têm sustentado que toda a ciência tem necessariamente
que ser naturalista, isto é, tem que excluir liminarmente qualquer
possibilidade de causas sobrenaturais. Estes e outros cientistas decretaram que
no Universo não há qualquer lugar para Deus e para a análise dos efeitos da
sua acção. Para eles, o facto de essa ser a sua profunda convicção filosófica
e ideológica é razão mais do que suficiente para que todos aceitem doravante
essa determinação e construam a ciência de acordo com ela. A verdadeira ciência,
dizem, só pode ser naturalista. A mesma só pode investigar as relações de
causa efeito entre matéria e energia, no tempo e no espaço.
Quem
pretender afirmar algo diferente não pode ser cientista. Quem ousar defender
que existem efeitos naturais inexplicáveis unicamente por causas físicas
naturais está irremediavelmente condenado a permanecer fora da ciência.
Note-se, porém, que este tipo de naturalismo não é totalmente neutro, do
ponto de vista ideológico. O mesmo toma um partido bem definido relativamente
à questão da “natureza da natureza”, na medida em que tem subjacente uma
compreensão estritamente física e materialista da natureza, excluindo a
possibilidade de a natureza conter uma dimensão imaterial (v.g. informação,
estrutura matemática ou computacional), para além da matéria e da energia. É
que, por si só, a existência de informação ou de uma estrutura matemática
remete imediatamente para a possibilidade de uma causalidade inteligente. Sucede
que este entendimento, longe de promover a objectividade e o pensamento crítico
na ciência, como pretendem os naturalistas, é a “mãe de todas as
tautologias”.
Esta tendência exige da parte da comunidade evangélica um empenhamento
cada vez maior na reflexão e no questionamento de uma certa contemporaneidade e
dos seus pressupostos, apontando as consequências que daí derivam tanto éticas
como espirituais, nas relações sociais, na identidade do homem e no seu
projecto de vida. Uma sociedade e uma cultura materialista na qual o homem é
visto mais como objecto ou máquina do que como pessoa, arrasta a humanidade
para insensibilidade e a indiferença e é geradora de morte. O amor, o altruísmo
e a solidariedade estão para lá das reacções químicas.
“Uma razão que crê e uma fé que pensa” é o mote de uma relação
complementar entre a razão e a revelação, entre a ciência e a fé. Quando o
humanismo significa o homem preso dentro de si próprio e acorrentado aos seus
próprios horizontes, há muito que fica por alcançar pela razão e pelo coração.
Pluralismo
religioso
O pluralismo religioso é um dado
adquirido na sociedade contemporânea. De alguma forma podemos dizer que o
cristianismo nasceu por um lado no seio de uma cultura religiosa restrita no
contexto judaico e por outro em meio ao pluralismo da cultura romana que nem
sempre teve a capacidade suficiente de integrar e lidar, de modo tolerante, com
os conteúdos do evangelho de Jesus Cristo. Existe nos vários momentos da história
da Igreja cristã, para não dizer em todos eles, uma igreja perseguida,
marginalizada e maltratada.
Não podemos ignorar que a história do cristianismo também tem sido
feita com uma associação e conivência com o poder instituído e lançando mão
da perseguição, da força e da violência para impor as suas ideias. Existe
também uma Igreja enfeudada ao poder estabelecido, quando não mesmo sendo a
alavanca e o sustentáculo dos privilégios fomentados. Esta é a face da moeda
que normalmente os críticos preferem e exploram com alguma razão, mas
perdendo-a quando ignoram a outra face e quando escamoteiam a violência
perpetrada pelas ideologias tidas como não religiosas, ateias e laicistas.
Diante do pluralismo religioso o evangelho afirma a singularidade e a
exclusividade de Jesus Cristo como único Mediador entre Deus e os homens, como
Emanuel – Deus connosco, como o Verbo – Logos divino. É aqui que se
articula a essência evangélica assumindo por um lado o respeito absoluto por
toda e qualquer expressão do religioso e do espiritual e, por outro, a afirmação
gentil e mansa da convicção absoluta de que diante de Jesus Cristo estamos
perante o próprio Deus entre nós. Tanto uma como outra postura fazem parte da
identidade evangélica e sem qualquer delas não é possível assumi-la, dar-lhe
expressão e vivê-la.
Muitas vezes o pluralismo religioso é tido como incompatível com a
apresentação e defesa das diferenças e do debate claro e transparente das
ideias, resvalando-se para o sincretismo ou para frases feitas como “a religião
não se discute”, “cada um tem a sua fé”, “isso é proselitismo e
fundamentalismo”, etc. Considero que só há verdadeira tolerância em
liberdade quando não se tem qualquer receio de debater, discutir, confrontar
ideias e argumentos. Porque razão o religioso há-de ser entendido e percebido
de forma diferente do científico e do político, em que o debate de ideias e de
propostas é essencial ao conhecimento e à democracia?
Não podemos abordar a questão do pluralismo religioso sem uma referência
explícita ao fundamentalismo, até porque nos meios de comunicação vários
comentadores e analistas têm identificado e caracterizado o movimento evangélico
como tal. Enquanto o fundamentalismo foi usado para designar um movimento de
retorno às raízes bíblicas da tradição cristã em contraposição ao
liberalismo teológico (o que raramente aconteceu) a designação não nos
causava qualquer tipo de embaraço ou mal-estar. A partir do momento em que ele
surge associado ao terrorismo, as coisas mudam de figura. Confesso que algumas
vezes considero que o uso do termo é feito por má-fé mais do que por ignorância,
na medida em que, mesmo em estudos académicos, não são feitas as devidas
destrinças históricas. Se é responsabilidade da comunidade evangélica
elucidar acerca do assunto, na maior parte dos casos o acesso aos meios não
lhes é proporcionado ou, melhor dizendo, é-lhes vedado.
Relativismo
ético
Vivemos um tempo em que os valores éticos
deixaram de ser considerados universais, imutáveis e eternos. Do aborto à
eutanásia, da pedofilia à homossexualidade, lidamos hoje em dia com profundas
alterações aos valores milenares em que assentou a nossa cultura. O avanço da
ciência em questões como a manipulação genética e a clonagem trazem-nos
novas situações às quais é preciso dar resposta tendo em consideração a ética
cristã. Muitas vezes a rapidez com que se exige uma decisão e a acusação de
que a fé se opõe ao desenvolvimento científico dificultam o diálogo
construtivo.
Uma vez mais o evangelho exige de nós uma postura de compreensão e
aceitação das pessoas quaisquer que sejam as suas opções e orientações,
sem contudo deixar de afirmar, acima de tudo pelas atitudes e comportamentos, os
valores e princípios em que acreditamos porque consideramos que estão sediados
e emanam do carácter de Deus.
Temos diante de nós o desafio que encontramos personificado na pessoa de
Jesus Cristo que sendo sem qualquer defeito ou pecado, atraía a si, convivia e
era acusado pelos religiosos legalistas de “amigo de pecadores e
publicanos”.
Nancey Pearcey no livro já referenciado
regista como a fé é determinante no modo como entendemos o comportamento e os
valores que o sustentam em contraposição a outras perspectivas que partem de
cosmovisões distintas:
Os marxistas afirmam que, no final das
contas, o comportamento humano é moldado pelas circunstâncias económicas; os
freudianos atribuem tudo a instintos sexuais reprimidos; e os psicólogos
comportamentais encaram os seres humanos pela óptica de mecanismos de estímulo-resposta.
Todavia, a Bíblia ensina que o factor dominante nas escolhas que fazemos é
nossa crença suprema ou compromisso religioso. Nossa vida é talhada pelo
“deus” que adoramos – quer o Deus da Bíblia quer outra deidade
substituta. (Verdade Absoluta, Nancy Pearcey, Editora CPAD, Rio de Janeiro,
2006, pp. 26)
O desafio consiste em mostrar pela argumentação
e pela prática a validade dos pressupostos cristão no comportamento e nas
decisões.
Não podemos deixar de aqui fazer uma referência
aos problemas diante dos quais a humanidade hoje está colocada, como são os
casos das armas de destruição maciça e a destruição do meio ambiente que
nos remete para cenários catastróficos, requerem uma acção concertada embora
muitas vezes sem a percepção clara de como se pode efectivamente intervir e
com a impressão de que as esferas decisoras estão para lá da capacidade
individual de influência e intervenção.
Outras questões importantes no domínio ético
prendem-se com a reflexão sobre a liberdade de expressão quando está em causa
a pornografia, a violência gratuita em programas de televisão ou a corrosão
da imagem da família tradicional.
São também temas incontornáveis que
carecem de uma continua intervenção da Igreja a desigualdade social que se
verifica a nível global e nacional. O papel das Igrejas e das organizações e
instituições a ela ligadas que desenvolvem todo um trabalho de apoio aos mais
desfavorecidos é de uma dimensão que não está devidamente avaliada, mas da
qual as sociedades e os Estados não podem prescindir.
OS
DESAFIOS POR DENTRO DA COMUNIDADE EVANGÉLICA
Para lidar com cada um destes desafios as Igrejas evangélicas necessitam
no meu entender de considerar três aspectos fundamentais da sua essência.
“Ouça
o Espírito Ouça o Mundo”
O teólogo inglês John Stott
traduziu de uma forma muito sintética e objectiva a postura que como evangélicos
devemos assumir no título de uma das suas obras: “Ouça
o Espírito Ouça o Mundo”. Ele mesmo é um exemplo dessa atitude. A
dado passo do seu livro refere:
(...)
somos chamados ouvir em dobro, ou seja, ouvir tanto a Palavra quanto o mundo. É
um truísmo dizer que precisamos ouvir a Palavra de Deus, a não ser, talvez,
que precisamos ouvir a ele com mais atenção e humildade, prontos para deixá-lo
confrontar-nos com uma palavra inquietante e inesperada. (John Stott, Ouça
o Espírito Ouça o Mundo, Editora ABU, pp. 29)
Ouvimos o Espírito principalmente através dos textos inspirados da Bíblia
Sagrada como inerrante Palavra de Deus, sempre actual e pertinente em cada época
e em cada momento, para cada uma das realidades que a humanidade em geral e o
homem em particular enfrentam. Senão soubermos escutar com a devida atenção o
que Deus nos diz, não teremos possibilidade de propor à nossa geração a
mesma atitude de escuta e de reflexão. Antes de falar temos de saber ouvir.
A leitura, reflexão e interpretação da Bíblia são para a comunidade
evangélica decisivas na aceitação da sua inspiração verbal e da sua inerrância.
Consideramos que o próprio Deus nos fala na nossa língua, de modo a que o ouçamos
e entendamos.
Para comunicarmos precisamos compreender as realidades, os desafios, os
medos e os sonhos do mundo em que vivemos. Daí também a necessidade de
escutarmos com toda a atenção as vozes do mundo que nos rodeia.
O conhecimento académico nas áreas da história
e da arqueologia, da exegese e da hermenêutica, da astrofísica e da biologia,
requerem uma atitude aberta e receptiva de diálogo e confronto de ideias.
O diálogo com a cultura ou com as culturas
é um desafio que tem atravessado as eras e que continua na ordem do dia. Bem
como o diálogo com as diferentes religiões e com a ciência. As tensões e as
rupturas do passado não nos podem inibir antes estimular na sua continuidade. Não
esperamos estar sempre de acordo, mas lidar com naturalidade com as diferenças
de opinião quando se parte de pressuposições distintas, confrontando-as e
sujeitando-as continuamente ao escrutínio da revelação e da razão.
Apologética
A apologética cristã tem sido uma
componente da reflexão crítica da fé diante das realidades culturais de cada
época.
A literatura evangélica está recheada de obras que desafiam o
pensamento para a cosmovisão cristã em cada época. Da pré-modernidade, à
modernidade e à pós-modernidade a mente cristã produziu um vasto espólio de
reflexão, na explicação e na defesa dos fundamentos da fé bíblica.
A apologética cristã desenvolve-se em três níveis fundamentais: no
que diz respeito aos conteúdos da própria fé cristã tanto no plano doutrinário
como no ético, no confronto com a heterodoxia e no diálogo com as religiões.
A contemporaneidade exige da parte da Igreja no século XXI como no século
I, no berço da Igreja cristã, um trabalho metódico e rigoroso no sentido de
apresentar e explicar de forma acessível, a quem está interessado, a essência
da fé cristã, sem subverter e adulterar os seus conteúdos bíblicos.
Incluo neste ponto a necessidade da utilização dos meios mais adequados
e da linguagem apropriada para dar a conhecer o pensamento cristão evangélico.
Vivência
Se a capacidade de ouvir e de falar
numa linguagem em que sejamos efectivamente compreendidos é decisiva face aos
desafios que a contemporaneidade nos coloca, a vivência dos valores cristãos
de amor, perdão e serviço, é o ponto essencial da resposta evangélica.
Os melhores argumentos perante a secularização, o pluralismo religioso
e o relativismo ético são os que se prendem com a vida. Nem sempre Jesus
discutiu com os Seus contemporâneos de há dois mil anos as razões da Sua
identidade e do Seu ensino. Algumas vezes Jesus limitou-se a convidar os
cansados e sobrecarregados a chegarem-se a Ele e serem aliviados, aprenderem
d’Ele e encontrarem descanso. O evangelho aponta para uma experiência pessoal
com o próprio Cristo. Antes de ser um corpo de doutrinas e um articulado de
valores éticos, o cristianismo é um relacionamento pessoal com um Cristo vivo.
É por isso que perante a contemporaneidade nos sentimos compelidos a
apresentar a pessoa de Jesus tal e qual nos é apresentada nos evangelhos. Para
nós o Cristo da fé tem que corresponder ao Cristo histórico, ou seja o Cristo
da fé é o mesma da história. O relato dos evangelhos é para nós totalmente
fidedigno e tem que ser liberto de todos os modismos a que o pretendam prender.
OS
DESAFIOS DO CRISTIANISMO EVANGÉLICO PARA A CONTEMPORANEIDADE
Diante de uma cultura contemporânea amarrada pelo materialismo e pelo
naturalismo em que o homem surge como produto do acaso, vindo do nada e a
caminho do nada, sem propósito e sem desígnio, como “uma encomenda postal da
parteira para o coveiro”; prisioneiro do prazer a qualquer preço em que
prevalece o “comamos e bebamos que amanhã morreremos”; sozinho e entregue a
si mesmo sem qualquer resposta do exterior às suas mais íntimas questões e
ansiedades.
Ou de uma cultura também contemporânea em que o espiritual se resume ao
formalismo religioso traduzido por um conjunto de liturgias.
Ou de uma cultura contemporânea em que a espiritualidade propõe a fé
na fé.
Os evangélicos e as igrejas evangélicas têm, através da Bíblia
Sagrada, um desafio a propor consagrado numa cosmovisão cristã tanto ao
pensamento quanto ao estilo de vida, tanto ao tempo quanto ao futuro e à
eternidade, tanto ao físico quanto ao espiritual e que se pode traduzir e
sintetizar em três afirmações principais que podem ser expressas por tês
palavras-chave – CRIAÇÃO,
QUEDA E REDENÇÃO.
Criação:
Como tudo começou? De onde viemos?
- No princípio Deus criou os céus e a terra e o homem à Sua imagem e
semelhança como um ser livre e responsável. A explicação do como nunca
substituirá a realidade do Quem, do porquê e do para quê.
Queda:
O que deu errado? Qual a fonte do mal e do sofrimento?
- Na sua liberdade o homem decidiu levar por diante o seu próprio
projecto, viver a vida à sua própria maneira, decidir por si mesmo o certo e o
errado, emancipar-se de Deus e governar-se a si mesmo. A Bíblia não apresenta
um homem em evolução, mas um homem decaído da sua vocação original. Apesar
disso confere ao homem uma dignidade que não pode ser superada e um destino que
não pode ser comprometido.
Redenção:
O que fazer a esse respeito? Como consertar o mundo?
- Deus não desistiu do homem e de modo pedagógico ao longo da história
e em Jesus Cristo consumou o plano da reconciliação dando a conhecer Quem de
facto é e o que o homem pode ser n’Ele. A restauração do homem à sua vocação
original, entretanto elevado à condição de filho de Deus, é pela graça e não
pelas obras, pelos méritos ou por virtudes especiais. É o âmago do evangelho
que a Bíblia traduz pela palavra graça. A graça é o favor divino. Este é o
distintivo do cristianismo. Não é o esforço humano que conquista Deus e a
bem-aventurança. A relação com Deus é restaurada pela dádiva imerecida. Não
há mensagem mais revolucionária para uma sociedade assente na competição, na
selecção natural e no poder do mais forte.
CONCLUSÃO
A terminar podemos igualmente afirmar
que os desafios da contemporaneidade às igrejas evangélicas radicam nos três
pilares que tornaram o movimento da reforma protestante um movimento de ruptura
com o obscurantismo, a prepotência religiosa e política, e a corrupção. Sola
Scriptura – Sola Gracia – Sola Fide. Somente a Escritura – Somente
a Graça – Somente a Fé.
Um outro princípio da Reforma apontava para uma reforma sempre em
reforma, o que é hoje um desafio da fé e para a fé evangélica, da
contemporaneidade e para a contemporaneidade.
Samuel
R. Pinheiro