CASAS DE DEUS

 

            Na Faculdade de Arquitectura foi realizada no dia 15 de Novembro de 2005 uma série de palestras subordinadas ao tema geral “Casas de Deus” e em que participaram várias confissões religiosas com a apresentação dos aspectos mais salientes da organização do seu espaço de culto.

            Fui convidado como evangélico para falar acerca dos nossos templos e a necessidade de preparar essa participação ajudou-me a perceber de uma forma um pouco mais consciente alguns aspectos particulares da forma como o espaço em que nos juntamos para celebrar em conjunto a Deus é organizado.

           

A IGREJA SÃO AS PESSOAS

            Este foi o título que escolhi intencionalmente como ponto de partida da comunicação.

            Na verdade a essência do conceito cristão de Igreja não são quatro paredes, não são ogivas e vitrais, não são cúpulas e abóbadas, não é uma torre sineira ou um claustro. Também não é um edifício ao qual se justapõe uma cruz como símbolo ou outro qualquer elemento.

            Através da Bíblia a Igreja são as pessoas.

            Esta realidade é extremamente importante para um arquitecto que pensa e cria um espaço destinado ao culto.

            A Igreja não é o templo para a habitação de Deus. Deus não habita num templo feito de pedra ou de betão mesmo que revestido a ouro. O templo não serve para transmitir a ideia de Deus nem para acolher a Deus.

            A Bíblia é bem clara quando refere que Deus não habita em templos feitos pelas mãos dos homens.

 

NÓS SOMOS AS CASAS DE DEUS

            As casas em que Deus habita somos nós.

“Entretanto, não habita o Altíssimo em casas feitas por mãos humanas; como diz o profeta: O céu é o meu trono, e a terra o estrado dos meus pés; que casa me edificareis, diz o Senhor, ou qual é o lugar do meu repouso? Não foi, porventura, a minha mão que fez todas estas coisas?” (Actos 7.48-50).

            Deus nos criou para Ele e é precisamente na reconciliação que reside a essência do plano de salvação que Jesus veio para concretizar e consumou através da Sua morte e ressurreição. Através de Jesus temos acesso ao Pai e podemos viver permanentemente em Sua presença.

            Jesus referiu a respeito de si próprio de uma forma muito clara e explícita: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.” (João 14.6).

            O apóstolo Paulo quando pelo Espírito Santo escreve em primeiro mão aos Coríntios e depois a todos em toda a parte e em todo o tempo afirma que somos templos em que o Espírito de Deus habita: “Acaso não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos?” (1 Coríntios 6.19).

            Que outro supremo bem podemos almejar que ser habitação de Deus em nosso corpo? Que dignidade maior podemos ambicionar?

 

A CASA DE ORAÇÃO

            Este é o termo que por excelência traduzia o espaço em que nos reunimos para cultuar a Deus em conjunto e que infelizmente começa a cair em desuso.

            Falar com Deus e ouvir Deus é o que significa a oração. Como Igreja nos congregamos para falar com Deus, ouvir Deus e falar de Deus.

            Neste sentido a Casa de Oração é um espaço caracterizado não pela sumptuosidade e pela imponência, mas pela simplicidade e singeleza que não são sinónimas de mau gosto e desleixo, antes bem pelo contrário.

            Uma Casa de Oração não é compatível com a ideia de uma “obra faraónica”, em que se projecta a ostentação e o poder financeiro.

            Felizmente uma boa concepção arquitectónica não é hoje em dia necessariamente sinónima de exagero, de gasto supérfluo, de efeitos dispendiosos.

            Como cristão evangélico não aspiro de modo algum a construção de catedrais ou basílicas que não soam bem com a prática de culto vivo, espontâneo, participativo, festivo, informal. Anseio pela possibilidade de espaços amplos e modestamente confortáveis para acolher todas as pessoas que desejam orar e cantar, louvar e adorar, celebrar e partilhar a fé no Deus que habita em pessoas de carne e osso que O recebem como único e suficiente Salvador e Senhor.

            Nestes espaços não há lugar para os ídolos, para imagens, para santos de pedra e madeira.

            A Igreja do primeiro século, no período chamado paleocristão na História da Arte, reunia-se em espaços adaptados. Não temos que nos sentir demasiado desconfortáveis com o facto de nos dias de hoje devido a factores de ordem politico-social e económica muitos de nós nos reunirmos em espaços adaptados.

 

A CENTRALIDADE DA PALAVRA

            Na Casa de Oração onde se juntam aqueles que são Casa de Deus o elemento que estrutura e organiza o espaço tem que ver com a Palavra através da qual Deus nos fala e nós ouvimos Deus falar. A Bíblia lida e explicada é o elemento central do espaço de culto cristão evangélico porque o alimento do cristão é a Palavra que sai da boca de Deus como Jesus referiu claramente citando as Escrituras: “Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.” (Mateus 4.4).

            Era assim que acontecia na Igreja primitiva, foi assim que voltou a acontecer com o movimento da Reforma protestante e é assim que hoje em dia nos devemos manter, porque é este o padrão bíblico. Era assim também que sucedia na sinagoga judaica no tempo de Jesus Cristo conforme nos relatam os evangelhos: “Indo para Nazaré, onde fora criado, entrou, num sábado, segundo o seu costume, e levantou-se para ler. Então lhe deram o livro do profeta Isaías, e, abrindo o livro, achou o lugar onde estava escrito: O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor. Tendo fechado o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e todos na sinagoga tinham os olhos fitos nele. Então passou Jesus a dizer-lhes: Hoje se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir.” (Lucas 4.16-21).

 

A COMUNHÃO DOS SANTOS

            Dois outros elementos marcantes do espaço de culto são o baptistério e a mesa da Ceia do Senhor aos quais está intimamente ligado a comunhão dos fiéis. Pelo baptismo se expressa publicamente a morte para a velha vida e a ressurreição para a nova vida, e através da Ceia do Senhor se comemora a morte de Jesus até que volte.

 

            É perfeitamente possível que algumas pessoas sintam algum acanhamento em entrar num templo evangélico em virtude de não saberem muito acerca dos significados e práticas que a ele estão ligados.

            Gostaríamos de incentivá-lo a visitar uma Casa de Oração e a assistir a um culto evangélico. Ouvir ler a Palavra de Deus, ouvir a sua exposição, ouvir a forma como oramos a Deus de forma livre e espontânea, ouvir os cânticos nos quais todos são livres de participar, deixar-se envolver pelo louvor e pela adoração colectiva, do coral, de um grupo ou de um solista.

            Acima de tudo ouça e leia a Palavra de Deus, sem ela não há conhecimento acerca de quem Deus é e do Seu plano e propósito para o homem. A verdade existe. Ela foi-nos revelada pelo Criador. Em Jesus temos a verdade em carne e osso. Na Bíblia temos a verdade na nossa língua.

            E não se esqueça que o desejo de Deus é habitar em nós pelo Seu Espírito.

 

 

Samuel R. Pinheiro

www.samuelpinheiro.com